quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Humanidade e selvageria, dois lados de uma mesma moeda...

   Dezembro chegou, e com ele o espírito natalino retornou... A cidade se enche de luz e por todo canto a frenética agitação da cidade mostra que mais um ano chega ao fim...
   Para todo lado vemos a decoração de Natal. As pessoas correndo de loja em loja à procura da lembrança mais delicada para seus entes queridos, todos parecendo estar preenchidos pelo clima de bem-aventurança pregado pelo Evangelho segundo Mateus: "E Jesus, vendo a multidão, subiu a um monte, e, assentando-se, aproximaram-se dele os seus discípulos; E abrindo sua boca, os ensinava, dizendo... Bem-aventurados os pobres de espírito, pois deles é o reino dos céus; Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados; Bem-aventurados os que tem sede de justiça, porque eles serão fartos; Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia... Ouviste o que foi dito: olho por olho, dente por dente. Porém, eu vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; Ouviste o que foi dito: amarás o teu próximo, e odiará o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os teus inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso pai que estais nos céus".
   Alegrar e presentear se tornam o lema de dezembro, afinal de contas é Natal... Tempo de relembrar o legado cristão, que prega "paz na terra aos homens de boa vontade"!!!
   Contudo, apesar dessa premissa, todo dia vemos no jornal mais um caso de corrupção, mais um caso de violência nos estádios, mais um caso de abandono e maltrato à animais, mais um assassinato cometido por um parente, mais um caso de descaso com o próximo...
   Aí, me pergunto: Onde está o espírito natalino, o legado cristão, que crê na bondade humana???? Me entristeço e reflito... Deve estar nas letras das músicas que aprendemos na escola, aquelas que cantávamos nas festas de Natal...
  Parafraseando o Evangelho, vos digo: Em verdade, dentro do humano habita o selvagem... Um feroz animal que age por auto-conservação, que luta apenas para sobreviver... Dele só podemos esperar, o mais legítimo egoísmo, sem nunca parar, sem nunca se arrepender... Monstro que vive nas profundezas escuras da mente, "dita humana"... Vive na brutalidade, usando de pura violência para se preservar...
   E quanto ao "humano"... Bem, esse nasce depois... Esse é o que está no legado do sermão de montanha... O ideal mais nobre daquele que pode vir a ser o que doma a fera brutal que mora em nossas mentes... O que pode se tornar tudo aquilo que se espera de um ser que também pode ser tocado pela bondade... O que é capaz de "dar a outra face"... O que é rico em bondade, generosidade e tolerância... Um conto de Natal à espera de ser realizado... Feliz Natal!!!! Mª Valéria Macedo.
   

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

E "O Mal-Estar na Civilização" persiste...

   Em 1930, Freud escreveu seu famoso texto "O Mal-Estar na Civilização". Texto brilhante, onde continua explorando a questão da relação entre o ego e a realidade, bem como todas as dificuldades decorridas daí...
   O viver civilizado requer limitações, regras, condições, postergações por parte do ego, o levando a criar muitas formas de lidar com todos os sentimentos que decorrem destas negociações...
   A frustração advinda desse embate, ajuda a definir as fronteiras entre o eu - outro...
   O eu, deverá se definir dentro desta realidade árdua, que por muitas vezes é fonte de sofrimento, decepções e tarefas duras. Contudo, a fim de suportar esse peso, o ego utiliza de medidas paliativas, construções auxiliares que ajudam a minimizar o trabalho. Por vezes ele busca satisfações substitutivas, como pequenas ilusões que diminuem o sofrimento; em outras situações, pode buscar substâncias tóxicas, que o tornam insensível à ele; e em outras ocasiões, utiliza derivativos poderosos, como a atividade científica, que ajuda a extrair luz do sofrimento humano. 
   Porém, muitas vezes, o ser humano também necessita de um "propósito para a vida", pois sem ele, o viver perderia totalmente seu valor... E é nessa lacuna, que o sentimento  religioso entra fornecendo o sensação de amparo tão desejada, uma vez que tenta promover a ilusão da não existência das limitações humanas, o consolo promovido pela idéia de "unidade com o Universo", que tenta constantemente afastar a sensação de perigo que o ego sente frente ao mundo externo...
   E assim, utilizando de todos esses recursos, o ego se defini e desenvolve, tornando a humanidade capaz de todas essas manifestações que observamos hoje, como a utilização de subterfúgios materiais crescentes, o consumo exagerado de drogas, o desenvolvimento tecnológico e científico ilimitado, e as novas e velhas formas de religiosidade que  massacram "em nome de Deus"...
   E assim, a humanidade caminha e a civilização progride... Contudo, o Mal-Estar permanece... 
Mª Valéria Macedo

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

LIBERDADE AINDA QUE TARDIA!!!!!!!

   

   Protestar, protestar, protestar!!!!! Aqui está uma máxima que deveria  ser direito de todos...
   Contudo, creio que não é...
   O quão é intolerável a diferença de pensamento???  O quão é impossível  haver respeito????...
   Todas estas questões sempre se precipitam quando uma polêmica vem à tona...
   Cães tratados com indignidade por laboratórios... Venda de riquezas naturais sem o devido critério... Entre muitos outros assuntos de protesto...
   Porém, permitir o livre pensamento, a manifestação justa e genuína das diferenças... Ahhhh, isso é outra coisa...
   Seres inteligentes, dotados de um racionalidade singular... Porém, tão obtusa e confusa... Tentam interromper o livre fluxo de idéias, pura e simplesmente, por não ser igual ao seu pensamento... Pior escravidão, não há...
   Livre seja o pensamento, livre seja o manifesto, livre seja o sentimento!!!!!!!!!!
   Nenhuma forma de censura será tolerada, nenhuma forma de escravidão será permitida!!!!!!!
   LIBERDADE AINDA QUE TARDIA!!!!!!
   Mª Valéria Macedo

   
   

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Primavera Árabe... Outono Brasileiro...

       Em meus posts tento sempre pensar sobre os processos inconscientes que motivam o ser humano, tanto no âmbito individual, como no âmbito coletivo. E frente aos últimos acontecimentos, não posso deixar de refletir sobre o assunto.
     A semana que passou foi marcada por uma série de protestos que tomaram as ruas brasileiras... A onda se iniciou pela questão do aumento da tarifa de ônibus, perpassando pela indignação com as obras faraônicas dos estádios da copa e culminou na questão da tentativa de proibição da livre expressão popular.
     Os protestos começaram de forma pacata, mas, na medida em que a força repressiva se intensificou no sentido de calar a voz popular, eles começaram a ganhar força, indignação e de forma contagiosa se espalharam por todo o país, desembocando numa tomada de consciência geral acerca da verdadeira situação nacional...
     O povo brasileiro, dito como acomodado, passivo e incapaz de ativamente se colocar no cenário social, de tempos em tempos, mostra que essa descrição não é expressão da  realidade de sua natureza... Sem dúvida, é um povo otimista que muitas vezes opta pelo viver de forma a ressaltar os aspectos positivos, ao invés de se embater com os negativos, contudo, de forma alguma é um povo alienado ou desengajado. 
     Todas as vezes que se sentiu ultrajado pelos desmandos e desrespeitos cometidos por algum grupo que intencionava acobertar as vantagens escusas que desonestamente tentavam implementar, "o gigante adormecido", despertou para mostrar sua revolta e indignação... 
     Entretanto, o que estaria na base deste comportamento pouco combativo do povo brasileiro, que desemboca nessa percepção errônea de nossa natureza? Seria uma herança de nossa colonização, que parece mais ter fomentado uma cultura infantilizada, que tende a esperar que "alguma figura de autoridade" venha dizer qual caminho devemos seguir? Essa, entre outras, poderia ser uma das hipótese que respondesse por nossa constante outorga de nosso direito a escolhas e decisões, à um outro que é colocado no lugar de um suposto saber... Uma dificuldade coletiva de assumir os riscos e as consequências por nossas atitudes, que acaba por nos colocar como espectadores de nossa estória, só nos cabendo seguir em frente de forma resiliente e silenciosa, como se passivos fossemos... 
     Contudo, mesmo que essas possibilidades sejam pertinentes, tudo tem limite, inclusive nossas fragilidades. E quando o ponto de virada é alcançado, nos levantamos frente à opressão, exigindo nossos direitos mais legítimos de expressão e participação na condução da nossa nação!!!
     Podemos ainda não estar no florescer de um novo tempo, de uma nova vida, como vemos na "Primavera Árabe", no entanto, o renascer das flores só começa pela "caída das folhas velhas e mortas" que o "Outono Brasileiro" parece promover... Acorda Brasil!!!! Mª Valéria Macedo
     
     

sábado, 4 de maio de 2013

"Coisas da Roça, parte 1: O extremo de uma fantasia!"

    


    Hoje em dia moro no interior, parte da semana estou em São Paulo, parte em São Roque. Uma escolha de uma vida mais calma, sem ter que enfrentar tanto os problemas paulistanos...
    Por um lado, é uma vida maravilhosa!!! Repleta de calma, tempo para aproveitar as coisas boas, sentir o tempo passar...
   Por outro, apresenta as limitações que encontramos fora dos grandes centros urbanos, não é mais possível comer um "belo cheese salada do hobby lanches" na hora que quero... Ok, afinal de contas, tudo na vida cobra um preço. Para termos uma coisa, necessariamente temos de abrir mão de outra...
    Contudo o que mais me diverte nesta vida mais simples, é a possibilidade de ouvir os "causos" que só o interior pode nos fornecer...
    Esta semana logo que minha ajudante chegou, foi contando que a cunhada tinha sido hospitalizada!!! Me espantei e perguntei o que tinha havido, e na sequência veio o "causo de Debby e Megh", duas primatas que pertenciam ao zoo de Fortaleza, mas com a falta de condições do local, foram "adotadas" por um casal abastado de São Paulo que possui um sítio em Ibiúna, que foi transformado em "santuário"para as chimpanzés...
   Segundo minha ajudante, a esposa do empresário, após um luto na família, entrou em um estado depressivo, fator capital para que seu marido tomasse a decisão de trazer as primatas para Ibiúna.
    Uma instalação repleta de "coisas de gente" foi criada para supostamente satisfazer as macacas!!! Amplo espaço, com múltiplos brinquedos, quarto com camas, roupas, e até mesmo uma babá, a cunhada da minha ajudante, que até se disponibilizava à dormir no quarto com Debby e Megh, "deixando com que elas afagassem sua orelha para poder dormir!"
    Logo pensei, como assim??? Dormir com duas primatas???? Nem por todos dinheiro do mundo, afinal de contas, são dois animais selvagens, que por mais que se possa dizer que foram humanizadas, podem ter um comportamento inesperado a qualquer momento!!! Que noite terrorífica!!!!O seriado do Animal Planet, "paixões perigosas" me veio à mente, notícia de jornal: "Babá é atacada por macacas na calada da noite!!!"
    E na sequência do relato de minha ajudante, veio o esperado: No domingo, a babá foi atacada por uma das macacas... Dentro do quarto, ela avançou e a babá ficou apanhando até que o dono, "papai", chegasse... Todos os outro empregados, mantiveram a porta do quarto fechada, uma vez que tinham medo de apanhar também... E para a constatação óbvia, quando "papai" chegou, o que aconteceu???? Ele apanhou também!!!!
    Moral da estória, ou melhor, "do causo", a babá foi parar no hospital, bem machucada... E a justificativa de "papai" para o ocorrido:ela ficou "mocinha"... Como se toda mulher, ao ficar menstruada, saísse batendo em que estivesse na frente!!!
    Gargalhadas à parte, creio que o "causo" nos faz pensar em algumas questões, como por exemplo, a imensa dificuldade das pessoas em aceitar quando alguém próximo fica vulnerável... O luto mal resolvido  é mais corriqueiro do que pensamos, mais nem por isso, adotados uma "Girafa" para "tapar o sol com a peneira"!!!! Devemos enfrentar o problema, buscando soluções adequadas para a questão, tais como, procurar um analista e um psiquiatra!!!!
    Com certeza, adotar uma macaca, uma girafa ou uma hiena, não vai resolver o problema!!!! Ah, mais dizem que os animais podem ter um efeito terapêutico... Sim, porém dentro de certos limites de ação, e olha que quem vos escreve é uma "amantes dos animais"!!!!
    Tudo na vida tem limites, e creio que talvez, esse seja o problema... As pessoas estão tentando fugir dos limites que a vida nos impõem... Este é um século marcado por uma busca incansável do impossível, do perfeito, do ilimitado!!!!
    E daí, como resultado último desta busca, ouvimos "causos" assim... Ainda bem que nada de pior aconteceu, não é???!!! Mª Valéria Macedo
    
    
            
    
    
    

    

segunda-feira, 25 de março de 2013

A inveja é uma m...

    No post anterior, falei sobre a bondade... E essa reflexão, me remeteu a uma nova temática: a inveja...
    Tema carregado de negatividade, que nos faz pensar em algo ruim, sombreado pela imagem da pobreza psíquica, avareza emocional, maldade insípida que age de forma silenciosa, mas que contudo, causa danos permanentes...
    Mas, o que significa dizer que alguém sofre de inveja??? No passado, entendiamos que o sentir inveja era apenas uma das forma da cobiça... Um desejar o que não se tem, um querer o que não se é capaz de gerar... Em alguns casos, até se pensava numa forma deturpada de admiração!!! Uma forma de admirar o outro, sem reconhecer formalmente essa admiração...
    Todavia, isso realmente corresponde a profundidade do sentimento de inveja??? Acredito que não... A inveja é um sentimento muito mais complexo e deturpado do que essa compreensão pressupõe...
    Dentro da visão psicanalítica, a teoria kleiniana foi a que se dedicou mais intensamente ao conceito de inveja. Para M. Klein, as origens da inveja derivam da agressão constitucional e a inveja precoce representa uma forma particularmente maligna e desastrosa de agressão inata. Todas as outras formas de ódio da criança são dirigidas para maus objetos que são sentidos como perseguidores e maus. Por isso, a criança odeia-os e fantasia com a sua tortura e destruição.
     A inveja é, pelo contrário, ódio dirigido contra bons objetos. A criança sente a bondade e os cuidados que a mãe lhe oferece, mas sente-os como insuficientes. Assim, surge o primeiro objeto a ser invejado, o "seio nutridor": o bebê sente que o seio possui tudo o que deseja e que é dotado de um fluxo ilimitado de leite e de amor, contudo, fantasia que o seio guarda estes recursos bons, para a sua própria gratificação, privando desta forma o bebê da nutrição ilimitada e tão desejada...
    Na fantasia inconsciente da criança, no seu mundo interior povoado de fantasmas, o seio é sentido como guardando avaramente o leite para os seus próprios objetivos. Assim, o ressentimento e o ódio associam-se a esta fantasia do seio inexaurível e o resultado é uma relação perturbada com a mãe. A inveja primária do seio materno desencadeia ataques sádicos ao seio materno, determinados pelos impulsos destrutivos, que visam estragar o objeto: o seio é odiado e invejado pelo fato do bebê sentir que o seio é mal e mesquinho.  
    Klein distingue a inveja da voracidade, na qual o bebê quer ter todos os conteúdos do bom seio somente para si, sem se importar com as consequências para o seio. Para o bebê voraz, a destruição não é o motivo mas a consequência da ganância. Na inveja, a criança quer destruir o seio e estragá-lo, não porque seja mau, mas porque é bom. Como a riqueza do seio está fora do seu controle, a criança não pode tolerar a sua bondade e, por isso, deseja estragá-lo. 
    O dano causado por esta inveja resulta da corrosão da primeira cisão entre seio bom e seio mau. No ódio não-invejoso, a destruição é dirigida contra os objetos maus, e assim, os objetos bons são protegidos pela cisão e, por conseguinte, o bebê pode sentir-se, pelo menos uma vez ou outra, protegido e seguro. 
    Porém, em virtude da inveja, a criança destrói os bons objetos, a cisão é desfeita e ocorre um aumento da ansiedade persecutória e do terror. A inveja destrói a possibilidade de esperança. Se o objetivo da voracidade é a introjeção destrutiva, isto é, escavar completamente, sugar até deixar seco e devorar o seio, a inveja "procura não apenas despojar dessa maneira, mas também depositar maldade, partes más do self, dentro da mãe, dentro do seu seio, a fim de estragá-lo e destruí-lo". Isto significa que a inveja visa "destruir a criatividade da mãe". Este processo que deriva de impulsos sádicos constitui um aspecto destrutivo da identificação projetiva, conceito usado por Klein para descrever as extensões da cisão nas quais partes ou segmentos reais do ego são separadas do resto do self e projetadas nos objetos. 
    Klein traça a linha divisória entre inveja e voracidade, dizendo que "a voracidade está ligada principalmente à introjeção e a inveja à projeção". A pessoa invejosa é insaciável, destrutiva, ladra, maldosa e fraca.
     A inveja intensa do seio nutridor interfere com a capacidade de satisfação e, por conseguinte, solapa o desenvolvimento da gratidão: a voracidade, a inveja e a ansiedade persecutória estão interligadas e intensificam-se reciprocamente. A inveja estraga o objeto bom originário e alimenta os ataques sádicos ao seio que, em face disso, perde o seu valor e torna-se mau por ter sido envenenado por esses ataques. Com a capacidade de fruição arruinada, a inveja torna-se persistente e a gratidão não se desenvolve para mitigar os impulsos destrutivos. Devido à inveja intensa e persistente, a criança torna-se incapaz de construir seguramente um objeto bom interno. 
    Mas, se estes estados negativos forem transitórios, a criança pode recuperar facilmente o objeto bom, sem prejudicar o estabelecimento das bases da estabilidade emocional e cognitiva e de um self integrado e forte. Esta relação positiva com o seio materno constitui, no decurso do desenvolvimento, a base sólida para a dedicação e a vinculação à pessoas, valores e causas, que absorvem, em certa medida, uma parte do amor que era inicialmente sentido pelo objeto originário
    O sentimento de gratidão deriva da capacidade de amar e, de acordo com a visão de Klein, é fundamental para "a construção da relação com o objeto bom" e para avaliar e apreciar o que há de bom nos outros e em si mesmo. A pessoa invejosa não pode realizar esta tarefa de reparar o objeto bom, por ser demasiado influenciável e, portanto, incapaz de confiar no seu próprio julgamento. A inveja excessiva e permanente, gera na vida adulta, uma instabilidade dos relacionamentos, o self fragilizado, está constantemente duvidando da capacidade do objeto amado de suprir suas expectativas de forma satisfatória.
    Assim, observamos que a inveja primária está à serviço da pulsão de morte, e nessa perspetiva se constitui como uma força destruidora da vida e da criatividade, impedindo o "ir em frente", bem como o "devanear em vigília".
    Indivíduos invejosos tendem a provocar danos em suas próprias vidas, bem como na dos outros, destruindo conexões positivas, minando possibilidades de êxito, inviabilizando a felicidade!!! Isto posto, podemos realmente dizer, a inveja é uma m... Mª Valéria Macedo
    
 
        
    

quarta-feira, 20 de março de 2013

A bondade nossa de cada dia!

    Tenho pensado acerca da bondade humana... Aquela boa e velha capacidade de "olhar a vida com bons olhos", de ser capaz de fazer coisas boas, de oferecer ao universo o que há de melhor em você...
    E ao pensar na bondade, imediatamente, me dedico a prestar atenção na sua manifestação... Contudo, a manifestação da bondade está ligada à manifestação do comportamento humano... E é aí que as coisas se aprofundam...
    Começo, então, a reparar nas atitudes das pessoas à minha volta, buscando ver e entender o bom que possa existir dentro delas. Logo de primeira, observo que o bom parece pouco se manifestar nas atitudes humanas, pouco participar do cotidiano das expressões dos seres humanos, como se não estivesse acessível de imediato...
    Isso me intriga, pois em tese, ela deveria surgir de forma desembaraçada e natural, como uma manifestação de um aspecto positivo da personalidade humana, como qualquer outro... Então, volto a observar as atitudes das pessoas... Logo de cara, percebo que todas as limitações e imperfeições, como avareza, egoísmo, tirania, raiva, rancor, inveja e etc, são facilmente visualizadas. Elas surgem no cotidiano humano sem reservas, sem empecilhos, como uma verdadeira expressão da personalidade de quem as manifesta.
    Porém, as virtudes, tais como amor, compaixão, gentileza, generosidade, gratidão e etc, não parecem ser expressões francas e abertas dos indivíduos... É como se todas elas, que no fundo irradiam da bondade que possa existir no ser humano, existissem numa intensidade muito mais branda do que os defeitos, que irradiam do lado mau que também habita à todos nós...
    Dentro deste panorama, parece que o lado bom, muitas das vezes perde em qualidade e quantidade para o lado mau... É como se a contemporaneidade não ajudasse na implementação do bom dentro de nós, humanos, mas com muita facilidade ajudasse o mau a se instalar... Triste observação...
    Ao tentar entender essa situação, busco ajuda da perspetiva psicanalítica, que tende a se focar nos aspecto psíquicos, na visão de que a personalidade humana é forjada no calor dos afetos que inundam a mente desde o nosso nascimento. 
    Neste cenário, podemos pensar que as virtudes e os defeitos humanos são resultado da mistura entre pulsão de vida e de morte, que se mesclam dentro do caldeirão mental primordial que encandece na alvorada da nossa existência. Um caldo mental engrossado pelas contínuas experiências vividas, boas e más, que as relações com os objetos nos propiciam... 
    Somos o resultado da mescla entre nossa carga hereditária, biológica/emocional, e nossa simbólica experiência relacional. Para nos tornarmos quem somos, precisamos desta "sarça ardente" que queima incansavelmente por toda vida, moldando nossa forma de ser e estar no mundo...
     E se assim for a forma pela qual nosso caráter é construído, esses tempos pós-modernos não estão contribuindo com sua parcela relacional equilibrada para nossa  edificação... Parece estar carecendo aos indivíduos experiências boas em maior quantidade e qualidade... Aquelas experiências carregadas de amor, paciência, compaixão e gratidão, que poderiam ajudar a marcar no psiquismo a bondade, tão escassa neste início de século...
    Ser bondoso requer modelo, aprendizado, vontade e realização. Ser bom, dá trabalho, mas é profundamente enriquecedor. A bondade nos eleva, nos transforma, melhorando em número, gênero e grau nossa qualidade de existência. Nos tornamos melhores ao buscar o bom dentro de nós, e consequentemente, ajudaremos aos outros nessa mesma empreitada.
    Viver numa proposta onde o bom domina, ajuda em nossa busca pela felicidade tão almejada, garantindo uma vida mais intensa e significativa, onde a dor pode ser vivida e ultrapassada, e o bom pode se propagar. Uma andorinha só não faz o verão, mas sempre pode ser o primeiro anúncio dele! Mª Valéria Macedo
    
    
       
    
    

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Psicanálise Virtual, os caminhos cibernéticos da mente humana!

    Recentemente assisti um programa sobre os atendimentos psicoterápicos virtuais. Assunto moderno, que coloca em pauta uma nova modalidade de compreendimento da mente humana. Ao invés das sessões ocorrerem pessoalmente, dentro do consultório do analista, elas podem ocorrer também através da internet, via skype!
   Ainda é uma modalidade recente, que não domina o cenário profissional, contudo, penso que deve desde já ser pensada sem descaso. A vida cotidiana se torna à cada dia, mais corrida, atribulada e distante. Cada vez mais, nos deparamos com pacientes que devem viajar à trabalho com frequência, pacientes que se locomovem pela cidade de forma muito intensa, ficando presos no trânsito da cidade, pacientes com atividades profissionais que não permitem uma rotina semanal de horário que viabilize o trabalho analítico clássico.
    E nessas condições, surge um questionamento: como lidar com esses entraves que complicam, ou até mesmo inviabilizam o trabalho analítico? Certamente, uma possibilidade é  implicar essas dificuldades no universo simbólico do paciente, e passar a interpretar essas questões como qualquer outra forma de resistência ao trabalho... Mais será que realmente podemos assim proceder? Ou essas atribulações da vida contemporânea já se manifestam de maneira autônoma, eximindo o indivíduo do controle da situação?
   Muito ainda deve ser pensado, porém o virtual chegou para ficar, e desta forma se inserir na malha associativa dos indivíduos. Negar essa possibilidade, venha quem sabe no futuro, quase que impedir o processo psicoterápico... Adaptações ao setting analítico sempre são processadas, na medida em que os tempos se alteram causando mudanças no modo de se viver, e nesta perspectiva, o atendimento via skype, venha a ser mais uma adaptação necessária ao trabalho...
    Mais como podemos inserir essa adaptação? Essa é a pergunta que não quer calar... Cabe a cada profissional incluir essa novidade dentro das regras básicas do ofício analítico, mantendo assim a confidencialidade, a confiança e a ética que norteiam o trabalho. Cabe também aparar as arestas burocráticas que regem o contrato entre paciente/analista, adequando questões práticas, tais como, pagamento, horário, dificuldades tecnológicas, etc.
   Muitas são as questões, porém elas devem ser pensadas e respondidas, visando assim a manutenção do objetivo último do trabalho psicoterápico, acolher o sofrimento humano!!! Mª Valéria Macedo