Venho, nas últimas semanas, falando desse clima paranóide que colore nossos tristes "tempos pós-modernos". E, bem a propósito, vimos nessa semana que se passou, o julgamento da casal Nardoni. Cenas espantosas! A mídia só falando no assunto, um circo armado na frente do fórum, uma multidão na porta! Claro que a promotoria tinha uma série de provas que incriminavam o casal, e provas estas, que a defesa não conseguiu refutar. Mas, de fato, nenhuma prova cabal. Na verdade, todas circunstanciais. Este fato, não diminui a importância da materialidade da prova em questão, ao contrário, na maioria dos casos, são essas provas circunstanciais que determinam o ocorrido, e assim sendo, não se pode menosprezar ou desqualificar sua capacidade de determinar os fatos ocorridos. Por isso mesmo, o resultado foi a condenação. Mas, o que mais me espanta é que mesmo antes dessas provas determinarem a questão, o casal já estava condenado! Como no tempo dos romanos, bem apropriado para a semana da páscoa, o julgamento já estava determinado, independente das provas. Como no tempo dos romanos, a multidão, clamava por sangue, impiedosamente gritando por vingança! Como no tempo dos romanos, até uma cruz foi levada para a porta do tribunal! E ao falar disso, me recordo de um filme de um grupo inglês, chamado Ponty Python, que trata através do humor, esse tema. O filme chama-se "A Vida de Brian". Nele, os três reis magos erram de gruta e entram na que a mãe de Brian tinha lhe dado à luz, gruta vizinha da de Cristo, e assim, o tomam como Messias. O filme é bem ao tom do humor inglês, sarcástico e irreverente. Brian, mesmo não sendo o Messias, é crucificado como se o fosse! Numa cena hilária, a mãe de Brian, que é interpretada por um homem, diz ter um compromisso imperdível, era dia de apedrejamento! Só os homens podia participar, mas as mulheres se disfarçam de homem e compravam sacos de pedras, já especialmente providenciadas para a ocasião, e entram no clima da execução! Gritam por justiça, e clamam pelo apedrejamento! A partir de um determinado momento, não importa mais o motivo, a culpa, ou as provas, o que importa é apedrejar! Como no filme, na porta do forúm de santana, todo dia havia uma fila, muitas mulheres com cartazes pedindo a condenação sem nem ao menos o julgamento ter terminado, era uma verdadeira fila de apedrejamento, só faltava o saco de pedras na mão de cada um! Que coisa mais bizarra! Humanos ogros, que funcionam pela lei de Talião! Como já disse, o julgamento trilhou o caminho das provas que incriminavam o casal, mas até isso ser determinado tinha de haver um percurso para se chegar nessa conclusão, e a multidão, na fila do apedrejamento, já bradava pela condenação! Esse é o tom de nossos tempos, em qualquer situação, já sacamos nosso "saquinho de pedras", e saímos apedrejando o 1º que aparece!De uma certa forma, é como se apedrejar fosse a saída para não virar alvo das pedras! "A melhor defesa, é o ataque"! Que tempos, que pobreza mental! E assim, nessa incivilização pós-moderna, caminhamos para a involução! Valéria Macedo.
Bem Vindos ao Armazém Psicanalítico! Armazém, uma vez que este blog se propõe a ser um espaço que disponibiliza elementos de fácil entendimento para a reflexão da vida cotidiana,como em um armazém onde encontramos de tudo um pouco de forma rápida e simples. Psicanalítico, uma vez que também se vale desta fonte teórica como matéria prima para a elaboração dos elemento simbólicos à disposição para as trocas criativas que espero que este espaço fomente! Sintam-se à vontade!
terça-feira, 30 de março de 2010
segunda-feira, 22 de março de 2010
"Ao modo da Rainha de Copas"

Semana passada falei sobre a paranóia que parece ter se instalado nos dias atuais, e hoje gostaria de permanecer no mesmo tema! Já repararam que, o que mais se observa nestes "tempos pós-modernos" é a lógica paranóica? Não sei se estou exagerando, mas tenho tido a impressão de que essa é a tônica atual. Para todo lado que olhamos, se fizermos isso com cuidado, poderemos observar o clima persecutório em ação! As pessoas tendem a baterem primeiro e perguntarem depois! É como se a lógica da "Rainha de Copas" saltasse do livro de Lewis Carroll, "Alice no País das Maravilhas". No livro, a Rainha de Copas, tem um jeito singular de lidar com qualquer dificuldade, seja grande ou pequena, ao menor sinal de contrariedade, grita ela: "Cortem-lhe a cabeça"! Como "uma grande rainha poderosa", acredita que todos os seus desejos devem ser satisfeitos, não tolera frustração ou limite! E assim crendo, a cada vez que a dificuldade aparece, ou que encontra alguém que lhe desagrada, proclama sem clemência: "Cortem-lhe a cabeça"! É assim que tenho percebido o funcionamento atual, todos querendo agir como a rainha de copas, inclementes, impiedosos, tirânicos, conclamando a lei de Talião: "olho por olho, dente por dente". Como resultado disso, as relações tomam um colorido persecutório, a desconfiança predomina e o medo reina, qualquer coisa é uma ameaça! A temporada de "caça às bruxas" está iniciada! Grandes fogueiras são armadas, e qualquer um vai arder dentro dela, mesmo sem saber o por quê. Todos se tornam acuados, "temerosos por suas almas", apontam para qualquer lado, nem que seja para desviar a atenção deles mesmos. A vida se reduz a uma imensa luta pela sobrevivência, a possibilidade de conversa fica impedida. Ficamos todos perdidos, "como cegos em tiroteio". E as suspeitas viram verdades, as maledicências se tornam concretas, a realidade se torna secundária! Que situação! Que impiedade! Que pobreza! Mas, sempre podemos lutar contra este estado de coisas! Sempre podemos nos recusar a participar da inquisição imposta, basta querer, basta dar o benefício da dúvida, basta se colocar contra esse movimento. Alguns dirão:" Mas, uma pessoas sozinha não é capaz de mudar nada, uma andorinha só, não faz verão"! Aí me pergunto: Será? O verão inteiro não é feito por uma andorinha, mas ele sempre se inicia, e muitas vezes é anunciada por uma andorinha solitária que chega trazendo as primeiras notícias da nova estação! Valéria Macedo.
segunda-feira, 15 de março de 2010
"Psiquismo Mortífero"
Neste final de semana, estava navegando na internet, quando me deparei com a notícia da morte do cartunista e de seu filho. Comecei a ler a notícia e fui ficando deseperançosa com a qualidade atual das mentes humanas. Tempos estranhos, estes tempos pós-modernos! A vida humana já não se marca com tanta força, seu valor parece estar delapidado. Tempos paranóides! Hoje tudo parece circundar a esfera persecutória, o outro não é mais encarado como um semelhante, é quase sempre visto como um estranho, mal intencionado, de quem devemos desconfiar! Tudo gira em torno do se proteger,do se precaver, do desconfiar, pois a qualquer instante o conhecido se transforma em ameaçador. As questões fundamentalistas reinam como verdades absolutas, e quem não está ao meu lado, necessariamente está contra mim! Cultura do medo, cultura da guerra! Paradoxalmente, temos um evolução gigantesca no campo tecnológico e científico, mas parece que quanto mais avançamos nessas áreas, mais regredimos em nossa humanidade. Quase como se esses desenvolvimentos deixassem o campo humano isento de progredir também. Como se essas evoluções garantissem nossa vivência enquanto sujeitos desta cultura! Contudo, essa não é a realidade das coisas, ao contrário, quanto mais esses campos se desenvolvem, mais deveríamos evoluir também. Mas, parece que não é isso que acontece, somos sugados pelo "vórtice da involução", apanhados pela estagnação, e assim, interrompemos nosso desenvolvimento e nos lançamos para uma espécie de" idade da pedra mental". Voltamos a encarar a vida como tendo apenas duas possibilidades, luta ou fuga. Viramos "homens de neandertal" e respondemos ao diferente com uma arma em punho! Tempos paranóides, esses tempos pós-modernos! A vida psíquica elaborada perde seu valor, os sentidos caem no vazio, a beleza humana se transforma em feiura. Mas, devemos nos alarmar contra esse movimento, ele é rápido, silencioso e mortífero. Não podemos deixar a subjetividade humana ficar reduzida à isso. Devemos nos impor limites mais elevados, metas mais complexas, objetivos mais profundos. A morte sempre espreita, mas contra ela temos a vida, rica em possibilidades, em coloridos e afetos. Basta optar por esse caminho, escolher essa trilha, permanecer nesta rota. Dá trabalho, demanda tempo e gasto de energia, mas nos resgata de volta para o reino da beleza, da reconhecimento, do sentido profundo, da vida humana! Valéria Macedo.
segunda-feira, 8 de março de 2010
" O relógio interno de cada um"
Para mim, o ano de 2010 está repleto de mudanças, mudei de consultório, mudei de casa, mudei de carro, mudei de móveis... Mas, acho que todas essas mudanças estão conectadas com mudanças internas que vêem se processando dentro de mim. Sou um tipo de pessoa que para mudar meu externo, preciso ter mudado internamente primeiro. Esse meu jeito, com certeza faz com que as mudanças externas demorem bem mais para acontecer, mas quando a mudança interna se processa, pode esperar, uma onda de mudanças concretas estão por vir. Esse é o meu jeito, esse é o meu tempo. Mas, existem outras formas de ser e mudar. Pessoas que tem um tempo interno mais acelerado, que nem bem questionaram suas formas de estar no mundo e já processam mudanças externas, talvés na espera de que estas possam ajudar a promover as mudanças internas mais profundas. Outras, que não conseguem mudar se não for pelo "empurrão" externo. Outras, ainda, que nem com esses "empurrões" conseguem mudar! Acho que essas são as que mais sofrem, parecem viver num tempo estagnado, onde nada acontece, nada muda, nada se transforma. Ficam paradas no tempo e espaço, aprisionadas num tempo mítico, onde a repetição do mesmo se marca eternamente. Buscam certezas, onde só existe imprevisibilidade. A cada vez que a vida marca que as certezas não existem, procuram explicações para o imponderável. E assim, vão seguindo, sem conseguir mudar, apenas repetindo o que já não funciona, e tentando se iludir que é apenas uma questão de "sorte"! Passam suas existências vendo a vida passar, se transformar, se reinventar, mas elas mesmas não conseguem sair da mesmice. Claro que mudar não é algo fácil, mas penso que ficarmos estagnados, como que "parados no tempo", é uma opção ainda pior! Então, deixo minha chamada à todos os inseguros:"coragem, ânimo, força! A vida só ganha sentido quando nos abrimos para a transformação"! Valéria Macedo.
quarta-feira, 3 de março de 2010
" A insustentável realidade de cada dia!"
Mais um novo ano velho se inicia! A cada Revellion, temos sempre a sensação de que encerramos uma etapa, e que daremos início a uma nova, simplesmente pelo fato do calendário determinar que o velho ano acabou, e um novo vai começar! Contudo, no dia 01/01 de cada novo ano, percebemos que tudo parece igual, o 1º dia do novo ano não difere em nada do último dia do ano velho. Amanhecemos com os mesmos questionamentos que tínhamos no dia anterior, com as mesmas manias, com os mesmos afazeres. E com o passar dos dias desse "novo ano" vamos nos dando conta que o que muda, por determinação social, é apenas a folhinha! Talvez a verdadeira mudança não seja aquela que é mecânica, com data marcada para acontecer, mas aquela que nos pega no contrapé do cotidiano. A mudança que ocorre fora, por ter sido precedida por uma mudança que primeiro ocorreu dentro! Essas mudanças, sim, são efetivas e duradouras. Elas independem da folhinha, estão sincronizadas com nosso tempo interno, nossa hora inconsciente. São aquelas que "nos pegam de jeito", abalando "convicções", "verdades absolutas"! Chegam para alterar a forma como lidamos com nossa realidade, e por vezes, provocam susto e aflição. Mas, se nos permitimos dar tempo para a acomodação, toda mudança requer acomodação, percebemos que elas trazem novidade, leveza, criatividade! As correntes, que por vezes nos prendiam a coisas sem sentido, caem por terra. A liberdade volta a ser possível, no lugar onde a escravidão tinha tomado conta. A vida ganha novos significados. Contudo, essas mudanças não acontecem por determinação burocrática, que pena! Necessitam de vontade, abertura, disposição, coragem, trabalho. Mudar é como manter a vida biológica, requer todo dia energia. Precisamos todo dia, investir energia para que a mudança ocorra. Todo dia desejar que as coisas sejam diferentes, todo dia buscar os meios para com que sejamos capazes de fazer as coisas diferentes, todo dia aceitar nossas limitações, buscar ajuda, aproveitar esta e usá-la à nosso favor. Claro que essa disposição é algo muito mais complexo do que gostaríamos que fosse, mas se nos disponibilizamos para essa empreitada, poderemos chegar no fim do ano velho, comemorando todas as mudanças que fomos capazes de alcançar, e tendo a certeza de que o novo ano também será repleto de outras tantas que, com certeza alcançaremos! Valéria Macedo.
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