No post anterior, falei sobre a bondade... E essa reflexão, me remeteu a uma nova temática: a inveja...
Tema carregado de negatividade, que nos faz pensar em algo ruim, sombreado pela imagem da pobreza psíquica, avareza emocional, maldade insípida que age de forma silenciosa, mas que contudo, causa danos permanentes...
Mas, o que significa dizer que alguém sofre de inveja??? No passado, entendiamos que o sentir inveja era apenas uma das forma da cobiça... Um desejar o que não se tem, um querer o que não se é capaz de gerar... Em alguns casos, até se pensava numa forma deturpada de admiração!!! Uma forma de admirar o outro, sem reconhecer formalmente essa admiração...
Todavia, isso realmente corresponde a profundidade do sentimento de inveja??? Acredito que não... A inveja é um sentimento muito mais complexo e deturpado do que essa compreensão pressupõe...
Dentro da visão psicanalítica, a teoria kleiniana foi a que se dedicou mais intensamente ao conceito de inveja. Para M. Klein, as origens da inveja derivam da agressão constitucional e a
inveja precoce representa uma forma particularmente maligna e desastrosa de
agressão inata. Todas as outras formas de ódio da criança são
dirigidas para maus objetos que são sentidos como
perseguidores e maus. Por isso, a criança odeia-os e fantasia com a sua tortura
e destruição.
A inveja é, pelo contrário, ódio dirigido contra bons objetos. A criança sente a bondade e os cuidados que a mãe lhe
oferece, mas sente-os como insuficientes. Assim, surge o primeiro objeto a ser
invejado, o "seio nutridor": o bebê sente que o seio possui
tudo o que deseja e que é dotado de um fluxo ilimitado de leite e de amor, contudo, fantasia que o seio guarda estes recursos bons, para a sua própria gratificação, privando desta forma o bebê da nutrição ilimitada e tão desejada...
Na fantasia inconsciente da
criança, no seu mundo interior povoado de
fantasmas, o seio é sentido como guardando avaramente o leite
para os seus próprios objetivos. Assim, o ressentimento e o
ódio associam-se a esta fantasia do seio
inexaurível e o resultado é uma relação perturbada com a mãe. A
inveja primária do seio materno desencadeia ataques
sádicos ao seio materno, determinados pelos impulsos destrutivos, que
visam estragar o objeto: o seio é odiado e invejado pelo fato do bebê sentir
que o seio é mal e mesquinho.
Klein distingue a inveja da voracidade, na qual o bebê quer ter
todos os conteúdos do bom seio somente para si, sem se importar
com as consequências para o seio. Para o bebê voraz, a destruição não é o motivo mas a consequência da ganância. Na
inveja, a criança quer destruir o seio e estragá-lo, não porque seja mau, mas
porque é bom. Como a riqueza do seio está fora do seu controle, a
criança não pode tolerar a sua bondade e, por isso, deseja estragá-lo.
O dano
causado por esta inveja resulta da corrosão da primeira cisão
entre seio bom e seio mau. No ódio
não-invejoso, a destruição é dirigida contra os objetos maus, e assim, os
objetos bons são protegidos pela cisão e, por conseguinte, o bebê pode
sentir-se, pelo menos uma vez ou outra, protegido e seguro.
Porém, em virtude da
inveja, a criança destrói os bons objetos, a cisão é desfeita e ocorre um
aumento da ansiedade persecutória e do terror. A inveja destrói
a possibilidade de esperança. Se o objetivo da voracidade é a
introjeção destrutiva, isto é, escavar completamente, sugar
até deixar seco e devorar o seio, a inveja "procura não apenas despojar dessa
maneira, mas também depositar maldade, partes más do self, dentro da mãe, dentro do
seu seio, a fim de estragá-lo e destruí-lo". Isto significa que a inveja visa
"destruir a criatividade da mãe". Este processo que deriva de impulsos
sádicos constitui um aspecto destrutivo da
identificação projetiva, conceito usado por Klein para
descrever as extensões da cisão nas quais partes ou segmentos reais do
ego são separadas do resto do self e projetadas nos
objetos.
Klein traça a linha divisória entre inveja e voracidade, dizendo que
"a voracidade está ligada principalmente à introjeção e a
inveja à projeção". A pessoa invejosa é insaciável,
destrutiva, ladra, maldosa e fraca.
A inveja intensa do seio nutridor interfere com a capacidade de
satisfação e, por conseguinte, solapa o desenvolvimento da
gratidão: a voracidade, a inveja e a ansiedade persecutória
estão interligadas e intensificam-se reciprocamente. A inveja estraga o
objeto bom originário e alimenta os ataques sádicos ao seio que, em face disso, perde o seu valor e torna-se mau por ter sido envenenado por esses ataques. Com a capacidade de
fruição arruinada, a inveja torna-se persistente e a gratidão não se
desenvolve para mitigar os impulsos destrutivos. Devido à inveja intensa e persistente, a
criança torna-se incapaz de construir seguramente um objeto bom
interno.
Mas, se estes estados negativos forem transitórios, a
criança pode recuperar facilmente o objeto bom, sem prejudicar o
estabelecimento das bases da estabilidade emocional e cognitiva
e de um self integrado e forte. Esta relação positiva com o seio materno
constitui, no decurso do desenvolvimento, a base sólida para a dedicação e a
vinculação à pessoas, valores e causas, que absorvem, em certa medida, uma parte
do amor que era inicialmente sentido pelo objeto originário.
O sentimento de gratidão deriva da capacidade de amar e, de acordo com a visão de Klein, é fundamental para "a construção da relação com o
objeto bom" e para avaliar e apreciar o que há de bom nos outros e em si mesmo.
A pessoa invejosa não pode realizar esta tarefa de reparar o
objeto bom, por ser demasiado influenciável e, portanto,
incapaz de confiar no seu próprio julgamento. A inveja excessiva e permanente, gera na vida adulta, uma instabilidade dos relacionamentos, o self fragilizado, está constantemente duvidando da capacidade do objeto amado de suprir suas expectativas de forma satisfatória.
Assim, observamos que a inveja primária está à serviço da pulsão de morte, e nessa perspetiva se constitui como uma força destruidora da vida e da criatividade, impedindo o "ir em frente", bem como o "devanear em vigília".
Indivíduos invejosos tendem a provocar danos em suas próprias vidas, bem como na dos outros, destruindo conexões positivas, minando possibilidades de êxito, inviabilizando a felicidade!!! Isto posto, podemos realmente dizer, a inveja é uma m... Mª Valéria Macedo