segunda-feira, 25 de março de 2013

A inveja é uma m...

    No post anterior, falei sobre a bondade... E essa reflexão, me remeteu a uma nova temática: a inveja...
    Tema carregado de negatividade, que nos faz pensar em algo ruim, sombreado pela imagem da pobreza psíquica, avareza emocional, maldade insípida que age de forma silenciosa, mas que contudo, causa danos permanentes...
    Mas, o que significa dizer que alguém sofre de inveja??? No passado, entendiamos que o sentir inveja era apenas uma das forma da cobiça... Um desejar o que não se tem, um querer o que não se é capaz de gerar... Em alguns casos, até se pensava numa forma deturpada de admiração!!! Uma forma de admirar o outro, sem reconhecer formalmente essa admiração...
    Todavia, isso realmente corresponde a profundidade do sentimento de inveja??? Acredito que não... A inveja é um sentimento muito mais complexo e deturpado do que essa compreensão pressupõe...
    Dentro da visão psicanalítica, a teoria kleiniana foi a que se dedicou mais intensamente ao conceito de inveja. Para M. Klein, as origens da inveja derivam da agressão constitucional e a inveja precoce representa uma forma particularmente maligna e desastrosa de agressão inata. Todas as outras formas de ódio da criança são dirigidas para maus objetos que são sentidos como perseguidores e maus. Por isso, a criança odeia-os e fantasia com a sua tortura e destruição.
     A inveja é, pelo contrário, ódio dirigido contra bons objetos. A criança sente a bondade e os cuidados que a mãe lhe oferece, mas sente-os como insuficientes. Assim, surge o primeiro objeto a ser invejado, o "seio nutridor": o bebê sente que o seio possui tudo o que deseja e que é dotado de um fluxo ilimitado de leite e de amor, contudo, fantasia que o seio guarda estes recursos bons, para a sua própria gratificação, privando desta forma o bebê da nutrição ilimitada e tão desejada...
    Na fantasia inconsciente da criança, no seu mundo interior povoado de fantasmas, o seio é sentido como guardando avaramente o leite para os seus próprios objetivos. Assim, o ressentimento e o ódio associam-se a esta fantasia do seio inexaurível e o resultado é uma relação perturbada com a mãe. A inveja primária do seio materno desencadeia ataques sádicos ao seio materno, determinados pelos impulsos destrutivos, que visam estragar o objeto: o seio é odiado e invejado pelo fato do bebê sentir que o seio é mal e mesquinho.  
    Klein distingue a inveja da voracidade, na qual o bebê quer ter todos os conteúdos do bom seio somente para si, sem se importar com as consequências para o seio. Para o bebê voraz, a destruição não é o motivo mas a consequência da ganância. Na inveja, a criança quer destruir o seio e estragá-lo, não porque seja mau, mas porque é bom. Como a riqueza do seio está fora do seu controle, a criança não pode tolerar a sua bondade e, por isso, deseja estragá-lo. 
    O dano causado por esta inveja resulta da corrosão da primeira cisão entre seio bom e seio mau. No ódio não-invejoso, a destruição é dirigida contra os objetos maus, e assim, os objetos bons são protegidos pela cisão e, por conseguinte, o bebê pode sentir-se, pelo menos uma vez ou outra, protegido e seguro. 
    Porém, em virtude da inveja, a criança destrói os bons objetos, a cisão é desfeita e ocorre um aumento da ansiedade persecutória e do terror. A inveja destrói a possibilidade de esperança. Se o objetivo da voracidade é a introjeção destrutiva, isto é, escavar completamente, sugar até deixar seco e devorar o seio, a inveja "procura não apenas despojar dessa maneira, mas também depositar maldade, partes más do self, dentro da mãe, dentro do seu seio, a fim de estragá-lo e destruí-lo". Isto significa que a inveja visa "destruir a criatividade da mãe". Este processo que deriva de impulsos sádicos constitui um aspecto destrutivo da identificação projetiva, conceito usado por Klein para descrever as extensões da cisão nas quais partes ou segmentos reais do ego são separadas do resto do self e projetadas nos objetos. 
    Klein traça a linha divisória entre inveja e voracidade, dizendo que "a voracidade está ligada principalmente à introjeção e a inveja à projeção". A pessoa invejosa é insaciável, destrutiva, ladra, maldosa e fraca.
     A inveja intensa do seio nutridor interfere com a capacidade de satisfação e, por conseguinte, solapa o desenvolvimento da gratidão: a voracidade, a inveja e a ansiedade persecutória estão interligadas e intensificam-se reciprocamente. A inveja estraga o objeto bom originário e alimenta os ataques sádicos ao seio que, em face disso, perde o seu valor e torna-se mau por ter sido envenenado por esses ataques. Com a capacidade de fruição arruinada, a inveja torna-se persistente e a gratidão não se desenvolve para mitigar os impulsos destrutivos. Devido à inveja intensa e persistente, a criança torna-se incapaz de construir seguramente um objeto bom interno. 
    Mas, se estes estados negativos forem transitórios, a criança pode recuperar facilmente o objeto bom, sem prejudicar o estabelecimento das bases da estabilidade emocional e cognitiva e de um self integrado e forte. Esta relação positiva com o seio materno constitui, no decurso do desenvolvimento, a base sólida para a dedicação e a vinculação à pessoas, valores e causas, que absorvem, em certa medida, uma parte do amor que era inicialmente sentido pelo objeto originário
    O sentimento de gratidão deriva da capacidade de amar e, de acordo com a visão de Klein, é fundamental para "a construção da relação com o objeto bom" e para avaliar e apreciar o que há de bom nos outros e em si mesmo. A pessoa invejosa não pode realizar esta tarefa de reparar o objeto bom, por ser demasiado influenciável e, portanto, incapaz de confiar no seu próprio julgamento. A inveja excessiva e permanente, gera na vida adulta, uma instabilidade dos relacionamentos, o self fragilizado, está constantemente duvidando da capacidade do objeto amado de suprir suas expectativas de forma satisfatória.
    Assim, observamos que a inveja primária está à serviço da pulsão de morte, e nessa perspetiva se constitui como uma força destruidora da vida e da criatividade, impedindo o "ir em frente", bem como o "devanear em vigília".
    Indivíduos invejosos tendem a provocar danos em suas próprias vidas, bem como na dos outros, destruindo conexões positivas, minando possibilidades de êxito, inviabilizando a felicidade!!! Isto posto, podemos realmente dizer, a inveja é uma m... Mª Valéria Macedo
    
 
        
    

quarta-feira, 20 de março de 2013

A bondade nossa de cada dia!

    Tenho pensado acerca da bondade humana... Aquela boa e velha capacidade de "olhar a vida com bons olhos", de ser capaz de fazer coisas boas, de oferecer ao universo o que há de melhor em você...
    E ao pensar na bondade, imediatamente, me dedico a prestar atenção na sua manifestação... Contudo, a manifestação da bondade está ligada à manifestação do comportamento humano... E é aí que as coisas se aprofundam...
    Começo, então, a reparar nas atitudes das pessoas à minha volta, buscando ver e entender o bom que possa existir dentro delas. Logo de primeira, observo que o bom parece pouco se manifestar nas atitudes humanas, pouco participar do cotidiano das expressões dos seres humanos, como se não estivesse acessível de imediato...
    Isso me intriga, pois em tese, ela deveria surgir de forma desembaraçada e natural, como uma manifestação de um aspecto positivo da personalidade humana, como qualquer outro... Então, volto a observar as atitudes das pessoas... Logo de cara, percebo que todas as limitações e imperfeições, como avareza, egoísmo, tirania, raiva, rancor, inveja e etc, são facilmente visualizadas. Elas surgem no cotidiano humano sem reservas, sem empecilhos, como uma verdadeira expressão da personalidade de quem as manifesta.
    Porém, as virtudes, tais como amor, compaixão, gentileza, generosidade, gratidão e etc, não parecem ser expressões francas e abertas dos indivíduos... É como se todas elas, que no fundo irradiam da bondade que possa existir no ser humano, existissem numa intensidade muito mais branda do que os defeitos, que irradiam do lado mau que também habita à todos nós...
    Dentro deste panorama, parece que o lado bom, muitas das vezes perde em qualidade e quantidade para o lado mau... É como se a contemporaneidade não ajudasse na implementação do bom dentro de nós, humanos, mas com muita facilidade ajudasse o mau a se instalar... Triste observação...
    Ao tentar entender essa situação, busco ajuda da perspetiva psicanalítica, que tende a se focar nos aspecto psíquicos, na visão de que a personalidade humana é forjada no calor dos afetos que inundam a mente desde o nosso nascimento. 
    Neste cenário, podemos pensar que as virtudes e os defeitos humanos são resultado da mistura entre pulsão de vida e de morte, que se mesclam dentro do caldeirão mental primordial que encandece na alvorada da nossa existência. Um caldo mental engrossado pelas contínuas experiências vividas, boas e más, que as relações com os objetos nos propiciam... 
    Somos o resultado da mescla entre nossa carga hereditária, biológica/emocional, e nossa simbólica experiência relacional. Para nos tornarmos quem somos, precisamos desta "sarça ardente" que queima incansavelmente por toda vida, moldando nossa forma de ser e estar no mundo...
     E se assim for a forma pela qual nosso caráter é construído, esses tempos pós-modernos não estão contribuindo com sua parcela relacional equilibrada para nossa  edificação... Parece estar carecendo aos indivíduos experiências boas em maior quantidade e qualidade... Aquelas experiências carregadas de amor, paciência, compaixão e gratidão, que poderiam ajudar a marcar no psiquismo a bondade, tão escassa neste início de século...
    Ser bondoso requer modelo, aprendizado, vontade e realização. Ser bom, dá trabalho, mas é profundamente enriquecedor. A bondade nos eleva, nos transforma, melhorando em número, gênero e grau nossa qualidade de existência. Nos tornamos melhores ao buscar o bom dentro de nós, e consequentemente, ajudaremos aos outros nessa mesma empreitada.
    Viver numa proposta onde o bom domina, ajuda em nossa busca pela felicidade tão almejada, garantindo uma vida mais intensa e significativa, onde a dor pode ser vivida e ultrapassada, e o bom pode se propagar. Uma andorinha só não faz o verão, mas sempre pode ser o primeiro anúncio dele! Mª Valéria Macedo