quarta-feira, 23 de setembro de 2009

"A Solidão Que Nos Faz Crescer!"

As vezes fico pensando sobre a solidão humana. O homem, por essência, é um ser solitário. Vem e se vai do mundo nesta condição. Contudo, isso não é motivo de desalento, primeiro por essa ser uma característica ontogênica humana, propriedade imutável de nossa natureza. Segundo, por ter a solidão um atributo que traz em si o potencial para ajudar o ser humano em seu amadurecimento. Na medida em que aprendemos a lidar com nossa solidão, nos tornamos mais cônscios de nós mesmos. Desenvolvemos habilidades para nos relacionarmos melhor com nós e com os outros. Como diz D.W. Winnicott, psicanalista inglês, "a capacidade de estar só, está na base da experiência egóica, portanto, inclui o outro. O aprender a estar só começa na infância, quando o bebê pode começar a estar só, na presença de sua mãe; e mesmo assim, estar consigo mesmo da forma mais relaxada, não-integrada, em contato com sua sensações mais primitivas, vivendo uma genuína experiência pessoal"! Quando realmente podemos desenvolver esta habilidade nos tornamos seres mais bem preparados para o encontro com o outro, pois nos encontramos de forma mais confortável com nós mesmos. Esse é o grande enigma da esfinge que devemos desvendar: "qual a chave para ter e manter relacionamentos saudáveis? decifra-me ou te condeno a solidão"! Certamente a resposta reside, como no enigma original, em nós mesmos! Ao nos tornarmos capazes de estarmos sós, relaxados, numa verdadeira experiência pessoal, nos abrimos para estarmos na companhia do outro, respeitando sua existência e sua solitude. Desta maneira, ambos os indivíduos poderão criar um genuíno vínculo de troca, rico em respeito e diversidade que irá ser a base de uma relação com o potencial para ser o pano de fundo que sustentará a passagem desses dois seres humanos pela mútua experiência da vida. E deste modo sendo, este encontro irá tirar o que estava a princípio programado para ter a marca de uma solidão mais dolorosa, aquela em que nos sentimos desamparados, sem ter um outro com quem contar, e reprogramará a rota pegando um desvio mais alegre e vivido, que possibilitará uma jornada rumo ao fim, destino último e inquestionável, de uma forma bem mais genuína, generosa e feliz! Valéria Macedo

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

"Objetos Psíquicos e Objetos Tecnológicos "

Quanto mais observo o cotidiano, mais me espanto! A cada dia uma nova notícia surge para trazer recentes confirmações de como a mente humana parece estar funcionando de modo mais primitivo. Ao invés do psiquismo seguir no caminho da evolução, da maturidade, da complexidade, parece que é o contrário que está em andamento! No início desta semana fiquei, mais uma vez, chocada com um novo acontecimento que confirmava essa percepção. Uma dupla de adolescentes do interior de São Paulo disputam um namorado, uma delas é trocada pela outra e assim, sai perdedora da disputa. Até aí, uma cena comum, mais o que se segue é incomum. Esta que perdeu, resolve tirar a limpo a estória. Na saída da aula, vai à caça da outra! E digo isso, uma vez que o vídeo que chega à midia, é do celular de um amigo que grava a cena desce o início, mostrando a menina vencedora saindo da escola junto de outras, e vindo detrás a perdedora em busca de revanche. Aí ficam as perguntas: como o menino conseguiu filmar a cena inteira? Será que ele sabia o que iria acontecer ali? Será que por saber já se posicionou para poder gravar a briga? Questões importantes a serem respondidas, e que o próprio vídeo já dá pistas positivas. O que se segue é impressionante: a menina que perdeu a disputa pelo namorado, vem pelas costa da outra e a agarra pelos cabelos. As duas iniciam uma briga e uma voz de mulher é ouvida, dizendo que ninguém deve se intrometer, que a filha é dela e que ela vai resolver! a partir daí, a "suposta mãe" incentiva a filha a dar soco, pontapé, e diz: "isso como eu te ensinei, dá soco na cara, chuta"! O vídeo acaba, que alívio! A "suposta mãe", ao ser entrevistada depois do ocorrido, alega que errou ao incentivar, mas que achava que qualquer mãe ao ver a "filha apanhar" teria feito o mesmo, e disse:" não criei filha para apanhar na rua, se apanhar lá, vai apanhar em casa também"! Como assim!!!! O vídeo é claro, foi a filha dela que veio para cima da outra menina, ela quem veio bater na outra! Se apanhou, foi por culpa do próprio ato impensado que cometeu!!! Como a psique humana inverte o que não consegue processar! O que não dou conta, não aguento a culpa e a responsabilidade, rapidamente projeto no outro. Uso o outro como receptáculo do que não suporto, do que não consigo lidar, coisifico o outro, o desumanizo para fazer dele minha lata de lixo onde evacuo o que não tolero em mim! Jeito primitivo de funcionar! Mas, e toda a estória de que mães devem cuidar, proteger, ensinar, dar limites à seus filhos? Por que essa mãe não conseguiu fazer isso? Talvez essas questões sejam mais complexas do que gostaríamos que fossem. Em primeiro lugar, cada caso é um caso, as particularidades de todas as psiques envolvidas só podem ser analisadas na profundidade de seus funcionamentos, e assim sendo, não podemos ir muito além da observação dos fatos em questão. Só nos resta, então, uma análise mais geral, mais global dos eventos. E os eventos apontam para uma situação de pouca instrumentalização de mãe e filha. A adolescente parece ter pouca capacidade de tolerar a frustração da perda do namorado, e em decorrência disto, a agressividade é atuada no concreto. A mãe, por sua vez também se mostra impotente para dar conta da projeção da frustração e da agressividade de sua filha. Se fosse hábil, interromperia a onda agressiva dela não permitindo que agredisse a outra menina, para depois poder lhe devolver esses elementos melhor digeridos e elaborados por sua própria mente ao conversar sobre as questões envolvidas, e assim possibilitar que sua filha pudesse lidar com a dor da perda. Resultado desta combinação: as duas mentes acabam funcionando de forma primitiva e pouco elaborada. E esse exemplo é só, um de vários que sempre estão à nossa disposição no cotidiano. Todos os dias uma enxurrada de notícias semelhantes chegam aos nossos ouvidos, independente de instruçao, cultura, classe social e econômica! Parece mesmo ter a ver com a maturidade do aparelho psíquico humano, e este dá notícias de que está paralisado em seu desenvolvimento, em contraponto com a civilização que a cada dia está mais e mais desenvolvida tecnologicamente. Que contrasenso! Pobres humanos, tão evoluídos em suas tecnologias de vida, mas tão pouco evoluídos em instrumentos psíquicos! Aí, só resta essa vida rica em objetos de consumo, como por exemplo os celulares super avançados que além de fazer ligações, gravam todos os absurdos do cotidiano. Porém os outros instrumentos necessários para uma vida rica em sentido e significado, estão ao que tudo indica, esgotados do mercado ! O valor das coisas se perde, o outro fica reduzido ao lugar do nada, e nunca podemos esquecer que o "outro",seremos nós mesmos em algum momento! Paradoxal, não acham??!! Valeria Macedo

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

"Um dia é da caça outro é da caçadora!"

Eventos sociais! Que bela oportunidade para se observar a forma como as pessoas se comportam e se relacionam! No que tange a diferença entre o comportamento masculino e feminino então, nem se fale! Situações assim são simplesmente um espetáculo! Este final de semana estive em um evento desta natureza. Que beleza, homens e mulheres de todas as idades, classes sociais e culturais em ação! Fiquei observando o movimento que ia se dando, e pude detectar três manifestações: um entre homens, o velho clube do bolinha. Outro entre as mulheres, o clube da luluzinha ( ou talvez pudéssemos dizer clube das jararacas). E um terceiro entre homens e mulheres, o clube da caça e do caçador (ou hoje também conhecido como clube da caça e da caçadora!). O clube do bolinha é o mais antigo, imutável, fiel, perseverante e monótono grupo masculino. Aquela velha e conhecida reunião masculina, onde só homens participam. Nestas reuniões só se fala de assuntos onde há um "que" masculino, absolutamente necessário para que se compreenda com profundidade e diversidade o mesmo. Pragmatismo, objetividade e racionalismos dignos de bombas vindas de filmes do tipo "Apocalipse Now" são marcas registradas das conversas desses clubes. Seja qual for o assunto, tudo é tratado como um cenário de guerra: invadir, conquistar e marchar em glória resumem os pressupostos básicos destas entidades! Tudo é visto como território a ser conquistado, pode ser dinheiro, profissão, amizade, relacionamento, sexo, família, etc. E se precisa ser conquistado, deve ser feito de forma a pressupor uma certa resistência! Então, em sendo necessário, invada o território em questão, pois conquistar é preciso! E uma vez que a invasão foi necessária e a conquista foi garantida, marchar em glória é absolutamente fundamental! Para que se dar ao trabalho de invadir e conquistar se não puder exibir???!!!! Devemos lembrar, a mente masculina é objetiva e pragmática! Nunca dispensa sua objetividade racional! Mas devemos ter em mente que estes lemas são para a vida, para o cotidiano. Dentro do grupo, uma vez formado se fala sobre isso e não se pratica isso, pois dentro dele se acredita na cumplicidade a priori. Se troca idéia a esse respeito, um apoia o outro, aplaude o outro. Homens são unidos até que se prove que essa união foi traída, e quando isso acontece pode acreditar, perdeu um amigo e talvez tenha ganhado um inimigo! O clube da luluzinha é tão antigo quanto o do bolinha, também tem algo de imutável, mas as aproximações param por aí. Sem dúvida é um clube que de fiél e monótono não tem nada! Tanto assim, que proponho mudar sua designação para clube da jararaca! Com certeza reunião de mulheres quase sempre acaba gerando disputa. Mulheres tendem a disputar com outras pelas menores questões: estética, peso, idade, roupa, homens, amizades, profissão,etc... Mulher, em relação à outras tende a ser muito competitiva, as vezes usando de todas as armas à sua disposição para alcançar a vitória desejada. Assim, quando se juntam nesses grupos, fofoca, competição, intriga e hipocrisia são características que se precipitam. Em nome da disputa o veneno tende a ser destilado! A lei da jararaca toma conta desta reunião! E todas essas regras servem para gerir o próprio grupo! Mulheres, a princípio, tendem a disputar, competem entre si, sempre desconfiam. E até que a confiança seja provada, a lei da jararaca prevalece! Por outro lado, quando a confiança é comprovada e estabelecida, pode relaxar! Ganhou verdadeiras amigas que sempre estarão ao seu redor! O clube da caça e do caçador também é muito antigo, talvez remonte à idade da pedra, desde que o "homem das cavernas puxava a mulher pelos cabelos para trazê-la de volta para sua caverna"! E assim foi por milênios, o homem neste lugar de "caçador", enxergando a mulher como uma presa à sua disposição para ser caçada! Por outro lado, a mulher permaneceu neste lugar, por medo, insegurança, falta de condição material, etc. Mas isso não quer dizer que ela não aprendeu a tirar alguma vantagem desta situação. Aprendeu com o passar do tempo, a usar o que tinha à sua disposição, seu poder de sedução! Se era a caça, e havia de ficar neste lugar passivo onde pouco podia fazer para ter domínio da escolha que estava em andamento, não abriria mão de poder influenciar, mesmo que de forma secundária essa situação! E desta forma, a caça foi aprendendo o jogo do caçador! E sem dúvida hoje podemos dizer, que em muitas circunstâncias o clube que observamos é o "da caça e da caçadora"! E diga-se de passagem, parece que aprenderam a lição de maneira exemplar, se é que se pode falar assim! Tanto que vemos ocasiões onde mulheres estão ostensivamente "imitando" o jeito masculino de caçar sua presa, no caso delas um homem, que nessa situação fica desprovido de sua arma fundamental: a potencia de sua atitude! Em outras ocasiões, vemos mulheres ainda se colocando no lugar de presas, porém parece que usam deste expediente como uma armadilha para ludibriar a verdadeira presa, no caso e mais uma vezes o homem, que desavisado e do alto de sua soberba acredita nesta falácia, que facilmente desaba assim que ele se encontra sobre o domínio da mulher que o enganou! Enfim, relacionamentos humanos, que complexidade. E o pior é que as vezes, nos iludimos que eles são simples, que ingenuidade! Ainda bem que temos os eventos sociais, que sempre são uma maravilhosa oportunidade para podermos nos deparar com toda essa variedade humana e assim refletir sobre elas! Valéria Macedo

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

"Pensar ou Congelar?"




Hoje gostaria de falar sobre uma questão que muito me inquieta, o quanto parece que as pessoas foram tomadas por uma incapacidade de lidar com a dor! Em minha prática analítica, em meu cotidiano institucional, em meus círculos pessoais ouço a queixa se repetir. Há uma dificuldade quase que generalizada das pessoas conterem os diferentes níveis de sofrimento. A dor é intrínseca a natureza humana, tanto do ponto de vista orgânico, quanto do ponto de vista psíquico. No que tange a esfera psíquica, ela nos acompanha desde o nascimento. Viver implica em ter de lidar com frustrações, e estas por sua vez, geram dor psíquica! Quanto mais nosso psíquico é capaz de tolerar frustrações, e consequentemente suportar o sofrimento delas decorrentes, mais ele tenderá a ser saudável, mais ele será capaz de gerar fluxos de pensamentos genuínos. Um aparelho psíquico saudável, é aquele que pode pensar os pensamentos que estão para serem pensados! Mas cada vez que não somos capazes de suportar a dor que é natural da vida, fruto das frustrações que a realidade nos impõem, nosso aparelho psíquico tende a entrar em modo de defesa. É frustrado, sente a dor, mas não quer lidar com a frustração, não quer suportar a dor, então lhe confere um sentido de agressão e em defesa atua sem pensar! Quase sempre esse processo acaba dando em desastre! Existe uma música que circula em site de piadas, que se chama "O Mamute Pequenino", aqui vai uma parte de sua letra para quem não a conhece:
O Mamute Pequenino queria fumar
Tentava e tentava e não podia fumar
Um cachorro, seu amigo, tentou ajudar
E quinhentos cigarrinhos fez ele fumar
E o que aconteceu?
Câncer… O Mamute teve câncer.
O Mamute Pequenino queria beber
Tentava e tentava e não podia beber
Um urso, seu amigo, tentou resolver
E seis litros de whisky fez ele beber
E o que aconteceu?
Cirrose… No Mamute deu cirrose.
O Mamute Pequenino queria transar
Tentava e tentava e não podia transar
Um Jegue, seu amigo, tentou ajudar
E com cem prostitutas fez ele transar
E o que aconteceu?
AIDS… O Mamute pegou AIDS.
O Mamute Pequenino queria voar
Tentava e tentava e não podia voar
Uma pombinha, sua amiga, tentou ajudar
E do quinto andar fez ele pular
E o que aconteceu?
M… O Mamute virou m...
Transcrevi parte da letra, pois apesar dela descrever de forma ogra o mecanismo, o faz de modo bastante claro! Quando não evitamos enfrentar as frustrações que a realidade nos impõem e a dor que é gerada com isso, nosso aparelho psíquico nos transforma em "mamutes pequeninos". E como o "mamute pequenino" saímos em busca de atuação! Atuar se torna nosso lema! Queremos nossos desejos realizados a qualquer preço! Só nos esquecemos que o preço quem faz é a vida! Nossa imponderável realidade! A mesma que já nos tinha dito não! Fim da estória: acabamos como o "mamute pequenino"! Podemos fumar, beber, transar, pular do 5ºandar, que acabamos sempre fazendo as mesmas m... que se faz quando não se tolera a frustração! Não pensamos e atuamos. E atuação é diferente de ação. Atuar é fazer sem pensar, agir é fazer depois de pensar! Aí, o cotidiano fica inundado pela queixa generalizada de pessoas que não conseguem suportar a dor de suas existências, que agora é maior ainda uma vez que ela própria foi agente de seu incremento. Ah, pobres humanos, eles não sabem o que fazem! Tornam-se "mamutes pequeninos" vagando pelas tundras gélidas de suas vidas que não podem ser pensadas! Nessas condições adversas só restam dois caminhos a seguir: ou irão rumo ao congelamento, ou poderão buscar o resgate de suas mentes. Aprender a tolerar a frustração e suas dores, e ser novamente capaz de pensar. Pensar por si, mesmo que com ajuda da interlocução de um outro. E quando digo "com ajuda da interlocução de um outro", quero dizer com a troca, com a possibilidade de diálogo, e não como na letra da música onde o outro entra para dar a resposta, sem diálogo, sem conversa, sem interlocução! Isso não é troca, é dar pronto, acabado, fechado, sem possibilidade de pensar! Então conclamo: não sucumbam ao congelamento e a consequente fossilização, busquem a troca significativa, criativa, que resgata a mente, que a coloca para pensar novamente junto a um outro significativo que possa ajudar nesse resgate. Não se refreiem por estarem frente a dificuldades e limites, a dor é sempre possível de ser suportada! E se a tarefa for pesada demais para ser cumprida sozinha, se poucas são as possibilidades de relações significativas, sempre se pode contar,quiçá com a ajuda de um analista! Valéria Macedo

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

"Persistência ou Teimosia"?

Esta semana tive notícias de uma amiga que a tempos não via. É uma pessoa querida, mas que por um desses "caprichos da vida", acabei por perder o contato mais próximo. Lá se vão uns cinco anos que estamos nos falando de forma esporádica, mas nem por isso menos afetiva. E assim sendo, muito me alegrou quando consegui retornar uma ligação que ela havia me feito na semana passada. Como de costume, logo de cara o mesmo afeto de sempre invade nossa conversa. Colocamos os assuntos do cotidiano em dia e ela me diz que também havia me ligado pois tivera um sonho comigo e que nele eu tinha um papel importante. O tal sonho já lhe tinha rendido várias interpretações em sua análise e ela sentia a necessidade de compartilhar comigo esse sentido. Em suma, a idéia central era a de uma busca:"Ela perdia algo, e eu era a pessoa que me importava com essa perda, não a deixava se acomodar, não a deixava abandonar a idéia do resgate deste algo que lhe era importante e me dispunha a com ela partir em busca do perdido!" Ela estava bastante afetada pelo sonho e muito mobilizada pelo sentido que tinha entendido depois de interpretá-lo! Desejava compartilhar esse sentido comigo e me dizer que sempre percebeu essa característica em mim, a persistência! Queria me falar o quanto naquele momento de sua vida essa característica que observava em meu comportamento, e que veio à tona no sonho, lhe faltava e o quanto estava em busca de resgatá-la. Fiquei muito feliz de poder, mesmo que de modo indireto, ajudá-la! É uma amiga querida! Mas também me coloquei a pensar. Acho que realmente tenho mesmo essa marca, sou persistente! Não desisto fácil das coisas. Insisto, acredito, me empenho. E acho que sou assim, pois é um traço da minha personalidade acreditar que "água mole em pedra dura"... Contudo, também não me furtei à reflexão do lado oposto desta moeda: quando a persistência vira teimosia! Muitas vezes já fui chamada de teimosa, claro! E acho, que as vezes, sou mesmo! Mas a questão fundamental é: quando passamos a fronteira da persistência e viramos teimosos? Ao me debruçar sobre essa questão observei que sempre que me peguei sendo teimosa foi quando me deixei "cegar" e permaneci insistindo em algo que já não tinha chance de dar resultado. Quando o foco já não era mais a questão em si, mais sim eu ter ou não a razão! É nesse ponto que deixamos de ser persistentes e nos tornamos teimosos. Quando a insistência não é motivada pela causa, mais sim por seu prêmio narcísico! Quando insistir, é insistir por algo que tem a ver com convicções e não mais com verdade! É uma linha tênue, a qualquer momento podemos cruzar e ultrapassar o limiar que nos levar do polo que nos dá perserverância, para o polo que nos finca na teimosia! Nossa mente sempre se encontra à mercê deste risco. Devemos constantemente estar atentos para esse perigo. É quase como "um canto de sereia", uma melodia que nos entorpece, produzindo miragens que nos fazem acreditar que nossas convicções são procedentes. Quando nos encontramos nesse estado cruzamos a fronteira entre persistência e teimosia. A mente deixa de pensar os pensamentos que estão à sua disposição e passa a se fechar em um funcionamento arrogante. Neste momentos, cuidado e atenção são sempre nossos melhores amigos! E é claro que a ajuda de um bom analista também é sempre bem vinda, como disse minha amiga! Mas acredito verdadeiramente que não é por esse motivo que devemos abandonar a persistência, a perserverância. Elas nos fornecem na medida certa, é claro, uma boa oportunidade para buscarmos nossos objetivos e metas. Nos ajudam a nos empenharmos na realização de nossos desejos. Sem insistência desistimos das coisas, abrimos mão do que queremos, abandonamos nossos sonhos. Nos tornamos espectros vagando em busca de sentido para nossas vidas! Então, ao pensar no sonho da minha amiga, penso também no sonho de todos nós, humildes mortais, e digo: Não abandonemos nossos desejos e sonhos ao vento, eles nos garantem o colorido para um vida mais rica em sentido! Persistam e nunca teimem! Valéria Macedo

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

"A Arte de Conviver!"

A convivência humana é uma arte! Em inúmeras situações do cotidiano tenho sempre essa sensação! Conviver demanda saber sobre a realidade, sobre o outro e principalmente sobre si mesmo. E quando falo saber, não estou querendo dizer a cerca de um conhecimento teórico, mas de uma sabedoria que vem com a vida, com a experiência, ou seja, que vem paradoxalmente com a convivência! É uma arte! É um verdadeiro aprendizado! Mas por sua essência paradoxal é difícil, exige coragem e paciência, artigos que nessa sociedade contemporânea estão em extinção. As pessoas a cada dia são mais e mais bombardeadas por demandas de pressa, urgência, impaciência, tudo deve ser obtido de modo rápido e fácil. O que não se encaixar nessa idéia será descartado, mesmo que isso implique em se descartar de pessoas e relacionamentos. E desta forma "A Arte de Conviver" vai ficando obsoleta! Já repararam como a cada dia parece que conviver vai ficando mais difícil? É como se todos estivessem endurecidos, impregnados por uma incapacidade de se flexibilizar, de se disponibilizar para o encontro com o outro. Se abrir para o encontro? Como assim? Estas são as perguntas de tantas pessoas nos dias de hoje. Meu consultório sempre se presta a ser um local de reflexão para muitas dessas questões. Percebo que as pessoas já não sabem mais como conviver, como conhecer, como ceder, como negociar, como gostar. Parece que sabem tão pouco sobre si e a realidade ao seu redor, que saber sobre o "outro" é algo quase que inatingível. Mas, por outro lado também viver só é muito difícil. Para tanto há de se aprender a conviver consigo mesmo, e esta definitivamente não é uma tarefa fácil! Há uma imensa gama de barulhos internos de nossa mente que devemos aprender a ouvir, entender e calar. Trabalho de Hércules! Ao invés de nos dedicarmos à ele, sozinhos ou acompanhados por analistas que possam nos ajudar nessa "viagem ao centro da mente", desviamos o curso e nos colocamos em rota de colisão. Um "outro" é o alvo, pobre dele! Estabelecemos relacionamentos e nos botamos a conviver. Não convivemos nem com nós mesmos, mas quem sabe num relacionamento com um "outro" o barulho seja grande o bastante para não nos darmos conta disso! Que ingenuidade! O que já era difícil se torna impraticável. E o relacionamento perece, sofre as consequências da impossibilidade psíquica que o indivíduo tem em sua habilidade de conviver consigo, com a realidade e com o outro! É claro que não desprezo as implicações destes "outros", eles sempre estão implicados, sempre podem escolher ficar ou ir embora. Se escolhem ir muitas vezes se poupam de desgastes emocionais intensos, demonstrando habilidades mais maduras para conviver. Se ficam, por outro lado refletem dificuldades nas mesmas zonas escuras das mentes que pouco convivem. Conviver é sempre uma via de mão dupla, nunca pode excluir o outro, essa é a regra! Mas o fato do outro também ser inábil para o conviver e se implicar nisso não minimiza os efeitos que essa dupla incapacidade produz! Ao contrário, duplica os efeitos. Provoca uma cascata de desencontros, desentendimentos, desafetos,desequilíbrios. O conviver se perde, se desfaz, se dilui num oceano de desilusões! Mas por outro lado, quando se recupera a possibilidade de conviver, tudo ganha uma outra dimensão. É como se fossemos lançados para um outro universo, uma dimensão paralela, onde tudo ganha um outro colorido. Pode haver o encontro, a troca , o acolhimento, o silêncio, o afeto! E a "arte de conviver" é preservada, a habilidade de conhecer a si, a realidade e ao "outro"é praticada e preservada, frutificando e enriquecendo nossas vidas, tonando-as menos solitárias! Valéria Macedo