sexta-feira, 18 de setembro de 2009

"Objetos Psíquicos e Objetos Tecnológicos "

Quanto mais observo o cotidiano, mais me espanto! A cada dia uma nova notícia surge para trazer recentes confirmações de como a mente humana parece estar funcionando de modo mais primitivo. Ao invés do psiquismo seguir no caminho da evolução, da maturidade, da complexidade, parece que é o contrário que está em andamento! No início desta semana fiquei, mais uma vez, chocada com um novo acontecimento que confirmava essa percepção. Uma dupla de adolescentes do interior de São Paulo disputam um namorado, uma delas é trocada pela outra e assim, sai perdedora da disputa. Até aí, uma cena comum, mais o que se segue é incomum. Esta que perdeu, resolve tirar a limpo a estória. Na saída da aula, vai à caça da outra! E digo isso, uma vez que o vídeo que chega à midia, é do celular de um amigo que grava a cena desce o início, mostrando a menina vencedora saindo da escola junto de outras, e vindo detrás a perdedora em busca de revanche. Aí ficam as perguntas: como o menino conseguiu filmar a cena inteira? Será que ele sabia o que iria acontecer ali? Será que por saber já se posicionou para poder gravar a briga? Questões importantes a serem respondidas, e que o próprio vídeo já dá pistas positivas. O que se segue é impressionante: a menina que perdeu a disputa pelo namorado, vem pelas costa da outra e a agarra pelos cabelos. As duas iniciam uma briga e uma voz de mulher é ouvida, dizendo que ninguém deve se intrometer, que a filha é dela e que ela vai resolver! a partir daí, a "suposta mãe" incentiva a filha a dar soco, pontapé, e diz: "isso como eu te ensinei, dá soco na cara, chuta"! O vídeo acaba, que alívio! A "suposta mãe", ao ser entrevistada depois do ocorrido, alega que errou ao incentivar, mas que achava que qualquer mãe ao ver a "filha apanhar" teria feito o mesmo, e disse:" não criei filha para apanhar na rua, se apanhar lá, vai apanhar em casa também"! Como assim!!!! O vídeo é claro, foi a filha dela que veio para cima da outra menina, ela quem veio bater na outra! Se apanhou, foi por culpa do próprio ato impensado que cometeu!!! Como a psique humana inverte o que não consegue processar! O que não dou conta, não aguento a culpa e a responsabilidade, rapidamente projeto no outro. Uso o outro como receptáculo do que não suporto, do que não consigo lidar, coisifico o outro, o desumanizo para fazer dele minha lata de lixo onde evacuo o que não tolero em mim! Jeito primitivo de funcionar! Mas, e toda a estória de que mães devem cuidar, proteger, ensinar, dar limites à seus filhos? Por que essa mãe não conseguiu fazer isso? Talvez essas questões sejam mais complexas do que gostaríamos que fossem. Em primeiro lugar, cada caso é um caso, as particularidades de todas as psiques envolvidas só podem ser analisadas na profundidade de seus funcionamentos, e assim sendo, não podemos ir muito além da observação dos fatos em questão. Só nos resta, então, uma análise mais geral, mais global dos eventos. E os eventos apontam para uma situação de pouca instrumentalização de mãe e filha. A adolescente parece ter pouca capacidade de tolerar a frustração da perda do namorado, e em decorrência disto, a agressividade é atuada no concreto. A mãe, por sua vez também se mostra impotente para dar conta da projeção da frustração e da agressividade de sua filha. Se fosse hábil, interromperia a onda agressiva dela não permitindo que agredisse a outra menina, para depois poder lhe devolver esses elementos melhor digeridos e elaborados por sua própria mente ao conversar sobre as questões envolvidas, e assim possibilitar que sua filha pudesse lidar com a dor da perda. Resultado desta combinação: as duas mentes acabam funcionando de forma primitiva e pouco elaborada. E esse exemplo é só, um de vários que sempre estão à nossa disposição no cotidiano. Todos os dias uma enxurrada de notícias semelhantes chegam aos nossos ouvidos, independente de instruçao, cultura, classe social e econômica! Parece mesmo ter a ver com a maturidade do aparelho psíquico humano, e este dá notícias de que está paralisado em seu desenvolvimento, em contraponto com a civilização que a cada dia está mais e mais desenvolvida tecnologicamente. Que contrasenso! Pobres humanos, tão evoluídos em suas tecnologias de vida, mas tão pouco evoluídos em instrumentos psíquicos! Aí, só resta essa vida rica em objetos de consumo, como por exemplo os celulares super avançados que além de fazer ligações, gravam todos os absurdos do cotidiano. Porém os outros instrumentos necessários para uma vida rica em sentido e significado, estão ao que tudo indica, esgotados do mercado ! O valor das coisas se perde, o outro fica reduzido ao lugar do nada, e nunca podemos esquecer que o "outro",seremos nós mesmos em algum momento! Paradoxal, não acham??!! Valeria Macedo

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