quarta-feira, 9 de setembro de 2009

"Pensar ou Congelar?"




Hoje gostaria de falar sobre uma questão que muito me inquieta, o quanto parece que as pessoas foram tomadas por uma incapacidade de lidar com a dor! Em minha prática analítica, em meu cotidiano institucional, em meus círculos pessoais ouço a queixa se repetir. Há uma dificuldade quase que generalizada das pessoas conterem os diferentes níveis de sofrimento. A dor é intrínseca a natureza humana, tanto do ponto de vista orgânico, quanto do ponto de vista psíquico. No que tange a esfera psíquica, ela nos acompanha desde o nascimento. Viver implica em ter de lidar com frustrações, e estas por sua vez, geram dor psíquica! Quanto mais nosso psíquico é capaz de tolerar frustrações, e consequentemente suportar o sofrimento delas decorrentes, mais ele tenderá a ser saudável, mais ele será capaz de gerar fluxos de pensamentos genuínos. Um aparelho psíquico saudável, é aquele que pode pensar os pensamentos que estão para serem pensados! Mas cada vez que não somos capazes de suportar a dor que é natural da vida, fruto das frustrações que a realidade nos impõem, nosso aparelho psíquico tende a entrar em modo de defesa. É frustrado, sente a dor, mas não quer lidar com a frustração, não quer suportar a dor, então lhe confere um sentido de agressão e em defesa atua sem pensar! Quase sempre esse processo acaba dando em desastre! Existe uma música que circula em site de piadas, que se chama "O Mamute Pequenino", aqui vai uma parte de sua letra para quem não a conhece:
O Mamute Pequenino queria fumar
Tentava e tentava e não podia fumar
Um cachorro, seu amigo, tentou ajudar
E quinhentos cigarrinhos fez ele fumar
E o que aconteceu?
Câncer… O Mamute teve câncer.
O Mamute Pequenino queria beber
Tentava e tentava e não podia beber
Um urso, seu amigo, tentou resolver
E seis litros de whisky fez ele beber
E o que aconteceu?
Cirrose… No Mamute deu cirrose.
O Mamute Pequenino queria transar
Tentava e tentava e não podia transar
Um Jegue, seu amigo, tentou ajudar
E com cem prostitutas fez ele transar
E o que aconteceu?
AIDS… O Mamute pegou AIDS.
O Mamute Pequenino queria voar
Tentava e tentava e não podia voar
Uma pombinha, sua amiga, tentou ajudar
E do quinto andar fez ele pular
E o que aconteceu?
M… O Mamute virou m...
Transcrevi parte da letra, pois apesar dela descrever de forma ogra o mecanismo, o faz de modo bastante claro! Quando não evitamos enfrentar as frustrações que a realidade nos impõem e a dor que é gerada com isso, nosso aparelho psíquico nos transforma em "mamutes pequeninos". E como o "mamute pequenino" saímos em busca de atuação! Atuar se torna nosso lema! Queremos nossos desejos realizados a qualquer preço! Só nos esquecemos que o preço quem faz é a vida! Nossa imponderável realidade! A mesma que já nos tinha dito não! Fim da estória: acabamos como o "mamute pequenino"! Podemos fumar, beber, transar, pular do 5ºandar, que acabamos sempre fazendo as mesmas m... que se faz quando não se tolera a frustração! Não pensamos e atuamos. E atuação é diferente de ação. Atuar é fazer sem pensar, agir é fazer depois de pensar! Aí, o cotidiano fica inundado pela queixa generalizada de pessoas que não conseguem suportar a dor de suas existências, que agora é maior ainda uma vez que ela própria foi agente de seu incremento. Ah, pobres humanos, eles não sabem o que fazem! Tornam-se "mamutes pequeninos" vagando pelas tundras gélidas de suas vidas que não podem ser pensadas! Nessas condições adversas só restam dois caminhos a seguir: ou irão rumo ao congelamento, ou poderão buscar o resgate de suas mentes. Aprender a tolerar a frustração e suas dores, e ser novamente capaz de pensar. Pensar por si, mesmo que com ajuda da interlocução de um outro. E quando digo "com ajuda da interlocução de um outro", quero dizer com a troca, com a possibilidade de diálogo, e não como na letra da música onde o outro entra para dar a resposta, sem diálogo, sem conversa, sem interlocução! Isso não é troca, é dar pronto, acabado, fechado, sem possibilidade de pensar! Então conclamo: não sucumbam ao congelamento e a consequente fossilização, busquem a troca significativa, criativa, que resgata a mente, que a coloca para pensar novamente junto a um outro significativo que possa ajudar nesse resgate. Não se refreiem por estarem frente a dificuldades e limites, a dor é sempre possível de ser suportada! E se a tarefa for pesada demais para ser cumprida sozinha, se poucas são as possibilidades de relações significativas, sempre se pode contar,quiçá com a ajuda de um analista! Valéria Macedo

Um comentário:

  1. Valéria, faz bastante sentido tudo isso que você comenta a respeito da dor. Talvez também vale a pena pensar que há uma marca cultural relevante na contemporaneidade que é a da busca do gozo, a qualquer custo. Neste sentido, se o desejo é irmão da falta, do deslocamento e da fantasia (portanto do trabalho provocado pela dor), o gozo se embaralha no próprio excesso, na ausência de limites. Vemos isso por todos os lados. Há uma troca do espaço de fantasia pela busca real, o que, como sabemos, também pode provocar mais insatisfação do que se pensa..... Fernando

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