quarta-feira, 25 de novembro de 2009

" O aprender, o comemorar, o relacionar!"

Já disse aqui, que estava às voltas com um trabalho de final de ano, de um curso que estava fazendo. Em decorrência disto, fiquei retirada de muitas atividades cotidianas, uma vez que este trabalho tinha prioridade. Cheguei até mesmo a postar, sobre o assunto do qual tratava nesse trabalho. Bem, o trabalho foi finalizado, entregue e será discutido nas próximas semanas, dando início a época de avaliação e encerramento do 1º ano do curso. Esse momento é sempre muito aguardado pela turma toda, que sem dúvida quer ter um bom feedback a cerca de suas produções. Muitos ficam ansiosos, seus narcisismos serão colocados à prova. Ser avaliado é sempre sentido de modo angustiado, questões primitivas são acionadas: será que irão gostar do que escrevi? vou ser criticado? vou me deparar com alguma dificuldade? Inúmeras são as questões suscitadas neste momento! Contudo, penso que mais importante do que toda a angústia que é mobilizada nos alunos nestas ocasiões, deve ser a postura do professor que lerá o trabalho. Por um lado, é seu dever questionar, avaliar e colocar as dúvidas que surgiram com a leitura. Mas por outro, é também sua função saber debater esses pontos de forma respeitosa e aberta às diferenças. A aprendizagem só acontece a partir da generosidade! Sem a abertura para a discussão, para a possibilidade de se conviver com as diferenças, o processo fica comprometido. Mas, quando isso é possível, também se torna possível o aprender, o ampliar, o aprofundar. E acima de tudo, abre-se a chance do se relacionar. Relacionar-se com o conhecimento velho e o novo, relacionar-se com os novos pares que encontrou pelo caminho. Cria-se o espaço para o crescimento mútuo, mestre e aluno. Um relacionamento de troca genuína se estabelece. A partir daí, muito crescimento se desencadeia, muita aprendizagem se solidifica, e é possível se perceber que novas relações foram criadas! Chega-se ao fim da jornada letiva, e é então necessário comemorar! Celebrar as novas amizades, o progresso alcançado, a riqueza da troca realizada! Boa jornada, belo caminho! Mais uma etapa cumprida! Valéria Macedo

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

"Bom Dia, Desamparo Nosso de Cada Dia!"

Esta semana, todos fomos assolados, pelo apagão de energia que tomou conta de 10 estados brasileiros! De repente, faltou luz! Até aí, um evento normal, que de tempos em tempos ocorre. Mas, a luz começa a demorar para voltar, em todo lugar parece não haver energia. E conforme o tempo vai passando, vamos dando conta de que é um black-out geral, mais que isso, é um apagão de proporções nacionais! Como o evento se iniciou depois das 10h da noite, a grande maioria das pessoas, já estava em casa. Contudo, isso não resolveu o problema, pois muitos dos que trabalham ou estudam à noite, ainda estavam na rua, e iriam ter de enfrentar o dilema da volta para casa sem a "segurança" que a luz parece dar. Mais que isso, todos começamos a nos preocupar de quando e como a energia voltará. Perderemos algo com a demora? No retorno da energia, haverão muitos problemas? Muitos vão demorar para chegar em casa, outros ficarão preocupados com os que ainda não chegaram, e outros tantos irão se deparar com os resultados produzidos pelo apagão no dia seguinte: aparelhos queimados, prejuízos individuais e públicos. Mas, certamente a angústia que assolou à todos durante essa noite, foi a angústia de desamparo. Aquela sensação angustiante de estar impotente frente ao imponderável! Aquela que nos faz pensar sobre muitas coisas que são da ordem da essência do humano: como somos pequenos frente à natureza, frente ao tecnológico, frente a perspectiva de vida e morte! Quando somos lançados à situações desta magnitude, somos forçados a nos confrontar com nosso próprio desamparo. Desamparo que vem de nossa própria natureza humana, pois somos finitos, frágeis e muitas vezes impotentes frente a situações maiores. Nos enganamos, todos os dias, acreditando que seremos capazes de controlar nossas vidas, nosso destino, nossa realidade! Que tolice! Falsa ilusão, que nos ajuda a conviver com esse desamparo essencial, companheiro nosso de todos os dias! Construímos fantasias onipotentes para espantar essa angústia primordial, para podermos todos os dias, abrir os olhos e começar mais uma rotina diária. Contudo, em dias como esse, em que a força maior, para além de nosso pequeno controle, nos impõe o imponderável, nos damos conta desse companheiro que fingimos não ver. Somos tomados por essa angústia sufocante, porém também nos confrontamos com uma bela oportunidade de elaborar nossa condição humana, que nos coloca desamparados frente ao fundamento da vida e da morte. Uma boa oportunidade de dar o devido valor ao que é mesmo importante. Uma oportunidade de dar "bom dia ao nosso desamparo fundamental". Uma chance de lidar melhor com nossas impossibilidades, de levar em conta nossos limites, e aprender a manejar melhor nossas fragilidades! Valéria Macedo

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

" Encontros ou Desencontros? Quando o Narcisismo Negativo Impera!"

Tenho postado pouco ultimamente! Final de ano, correria, tempo curto e especialmente tomado, por um trabalho que devo entregar, até o meado de novembro, para um curso que faço sobre "Psicopatologia Psicanalítica e a Clínica Contemporânea". Dentre muitos assuntos que vimos ao longo do ano, deveria escolher um deles, para desenvolver meu trabalho final. A Clínica Contemporânea é bastante fascinante, uma vez que, uma grande variedade de funcionamentos psíquicos se apresentam na rotina clínica de todos os psicanalistas. Os clássicos diagnósticos, que foram tão bem estudados por Freud e seus discípulos, já não necessariamente, se aplicam em todos os casos nos dias atuais. Muitas vezes, nos deparamos com inúmeros casos mistos, onde diversos mecanismos psíquicos estão em atividade, de forma simultânea. Também observamos, novas configurações, psiquismos operando de maneira bem diferente dos clássicos formatos. É sobre essa região, que estudamos e que devo escrever meu trabalho. Depois de muito ler, pesquisar, refletir, decidi me aprofundar nos funcionamentos narcísicos, é um assunto que me interessa, e, se apresenta cada dia com maior frequência em minha clínica. Mais especificamente, tentei me aprofundar, em como as relações afetivas são atingidas por esse tipo de funcionamento. A primeira coisa que observei, foi o quanto os indivíduos que operam nessa zona, apresentam, uma grande dificuldade em estabelecer relações com o outro. Isto é, sujeitos que ficaram aprisionados em modos narcísicos de funcionamento mental, tendem a sempre enxergar no outro, a imagem deles próprios. Muitas vezes, são indivíduos centrados neles mesmos, a formação de seus egos foi como que"perturbada". Ao invés, do ego caminhar na direção de se tornar um sujeito, por defesa, caminhou rumo ao "narcisismo". O que se desenvolve a partir daí, é um ego ideal, que se toma como perfeito, pleno, poderoso, uma verdadeira Deidade, absoluta e totalizante. Com um ego assim, é muito difícil poder enxergar o outro, dar-lhe um lugar de existência. Para isso, seria necessário reconhecer suas próprias limitações e defeitos, mas esses seres que se acham magníficos, são incapazes de lidar com tamanha frustração! Resultado dessa conjuntura de coisas: estão condenados ao encapsulamento, ao retraimento! Mas, não confundam, quando falo encapsulamento, não estou querendo dizer, que esses indivíduos estão fechados em suas casas, sem conseguir se incorporar na malha social. Pelo contrário, estão inseridos nessa malha, porém, de forma inadequada. São aqueles, que aos olhos dos "outros", são exuberantes, vendem a beleza, a perfeição, a eficiência, como seus atributos. Aos tolos desavisados, presas fáceis dessa ilusão narcísica, a isca está lançada! Vão acreditando que irão ter um encontro magnífico, com este "ser superior", mas acabam por desembocar no mais trágico desencontro afetivo de suas vidas! O que era beleza, perfeição, vai se apresentando como uma fantasia de um alguém, que não lida com frustração, e por isso, não consegue enxergar seus defeitos. A esperança de encontro afetivo se desfaz, e sobra a solidão do desencontro que lhe nega sua existência. A impossibilidade reina soberana, e o pobre "outro", mortal comum, percebe que nunca foi realmente enxergado. "O que narciso vê é só seu espelho!" O que este "outro" tem a sua frente é um ser, tomado pelo narcisismo negativo, aquele que impede a ligação, a troca, a vida. Que busca apenas, o desligar, o desconectar, o negar a existência do eu e do outro. Fim da estória, fim da expectativa de conexão pelo amor. Resta ao "outro", se entristecer, chorar a perda do que nunca teve, e partir para outra. E, quem sabe, levando consigo o aprendizado do trágico encontro/desencontro com um ser chamado "Narciso"! Valéria Macedo