quarta-feira, 14 de março de 2012

"Encontros, desencontros e reencontros na contemporaneidade: Eco e Narciso, a reedição trágica do amor impossível!"

Ao olhar as relações amorosas na contemporâneidade, facilmente observamos uma tendência ao que não encaixa. Repetidas estórias de encontros e desencontros, que tornam o caminho relacional mais árduo e longo. Em alguns casos um reencontro é possível, em outros, ele é negado!

Pensar o fenômeno me agrada, uma possível forma de entender o que eclipsa de forma tão intensa a mais forte tendência libidinal humana. Muito tenho lido e trabalhado dentro desta perspectiva, uma vez que a psicanálise sempre nos possibilita uma via para a compreensão do tortuoso caminho entre o eu e o outro.

Em muitas postagens me dediquei a reflexão de questões narcísicas, contudo o enfoque sempre recaiu mais sobre as relações Eu/Outro, numa dimensão generalista, sem me aprofundar neste veio libidinoso que transforma o campo amoroso.

Contudo, pensar em relação amorosa, sempre nos remete em primeiro lugar, ao obscuro recanto onde o narcisismo reside. Para amar um outro, primeiro precisamos nos discriminar dele, buscarmos nosso contorno pela diferença que o outro nos sugere. E quando não conseguimos realizar essa discriminação, partimos em direção a um outro que na verdade pouco se diferencia de nós mesmos, um outro que talvez apenas reflita nossa própria imagem idealizada, como um espelho mágico que nunca mostra o real, reflete apenas e tão somente uma fantasia aspirada!

Mas, nesta perspectiva, o horizonte que se insinua é ilusório e repleto de frustração. Como no mito grego de Eco e Narciso, a relação não permite que ambos possam se enxergar e se escutar, tudo se resume à ecos e reflexos não discriminados de um desejo amoroso...

A confusão toma conta do cenário, dentro e fora, interno e externo, ego e objeto. O encontro se precipita, porém sem se materializar, ficam apenas as palavras que reverberam o prenúncio do impossível, a identificação com o que está refletido!

Como no mito, as relações da contemporâneidade repetem a tragédia, reencenam a loucura que habita o humano, quando este se fecha dentro da dimensão que se faz par. Ego/Narciso, Deidade que reina implacavelmente, sem dar chance ou lugar ao outro. Defesa última, de um ego aprisionado num estado encapsulado, que o leva a ver o outro como ameaça.

Porém, a medida defensiva é exagerada e acaba for ferir à ele próprio, mitificando seu destino, onde a troca afetiva lhe é negada... Indivíduos temerosos frente ao diferente, presos num encantamento com a perfeição, impedidos do verdadeiro encontro real. Evitam a frustração, mas também a riqueza de uma dimensão Sujeito/Outro, permanecendo desta forma, numa dimensão Ego/Narciso.

Estórias mitopoética que reproduzem encontros e desencontros, onde os enamorados permanecem sempre juntos,mas eternamente separados, à espera que um dia a profecia não se cumpra: "Se eles não se virem a si mesmos"!!! Mª Valéria Macedo