Já disse que sou uma apreciadora da programação da tv paga, e não pelo fato dela "ser paga", mas em grande parte pelo fato da programação da tv aberta ter se empobrecido demais nos últimos anos. Na tv aberta, os únicos programas que ainda mantém uma preocupação com a qualidade são os telejornais e as telenovelas. Já na tv paga, grande parte de sua programação tem um grau mais alto de qualidade, formada por programas mais preocupados com o entretenimento, conciliado com um grau de reflexão que leva o telespectador a pensar. Dentre alguns desses programas, em minha opinião, se encontra o "Saia Justa" do canal GNT, que reúne quatro mulheres (Mônica Waldvogel, Maitê Proença, Betty Lago, Márcia Tiburi) que toda semana exploram temas variados, sempre com um olhar feminino, e sempre relacionados a situações de "saia justa". Desde que existe (2002), já teve outras formações, sendo que Mônica Waldvogel se mantém, uma vez que é a âncora. Mas, desde 2005 esse grupo se formou e se estabilizou. De uma certa forma, eu que acompanho o programa desde seu início, acho que deste modo ele gradualmente entrou numa fase monótona, uma vez sem as mudanças de participantes, que traziam sempre uma nova visão para o programa rompendo com a homeostase que estava estabelecida, as opiniões se mantiveram num mesmo padrão de raciocínio. Assim os temas, mesmo que se modificando, geraram discussões que tenderam a ficar numa mesma zona, uma vez que a visão das participantes já estava bem explicitada para o público. Acredito que o programa tinha mais dinâmica no tempo que a troca de elemento do grupo era mais frequente. Mas, até aí, pode ser uma nova perspectiva do programa, escolha da direção! Contudo o que vem me inquietando é uma particularidade que tenho observado. As quatro "saias", como são chamadas pelo público, dizem ser analisadas e em decorrência disto, questões analíticas sempre estão em pauta! Pelas observações que fazem, devem ter feito análise ferudianas ou lacanianas, e encerrado seus processos há muito tempo. Mas, mesmo sem serem profissionais, ou estarem em análise na atualidade, vivem dando sua "interpretações analíticas", diga-se de passagem bastante desatualizadas e tentenciosas, como se estas fossem "análises profissionais, atuais e imparciais". Acho que uma das funções da tv seja popularizar o conhecimento científico, levá-lo ao público leigo para com que este possa se familiarizar com assuntos que são mais acadêmicos, mas sem dúvida dentro de certos parâmetros. Uma coisa é facilitar o discursso científico, outra é banaliza-ló, ridicularizá-lo, empobrecê-lo! E acho, que em parte, é um pouco o que elas tem feito. Resultado, ao invés de aproximar o público leigo do discurso acadêmico, retirando os estereótipos, o que acontece é o contrário, um afastamento pela banalização. Especialmente, neste último programa foi o que aconteceu. Dedicaram um bloco do programa para falar de psicanálise e terapia cognitiva, especialmente sobre tratamentos que visam elaborar as causas ou tratamentos que visam suprimir os sintomas. Entrevistaram um psicanalista e uma terapeuta cognitiva, para que pudessem expor seus argumento de forma clara, e aí vem a pior parte, elas começam a dar suas opiniões. Todas tendenciosas, Mônica ressaltando como "já não faria mais análise, pois análise não vai fazer você ser diferente de quem você é", Betty levantando a questão do tempo, " não faria , pois ter de ir 3 vezes por semana não dá", Maitê dizendo que " só se for um analista que num dia de angústia dê uma levantada na autoestima, para depois continuar com esse negócio de papai e mamãe" e Márcia, a menos parcial e que talvés tenha feito mesmo análise lacaniana, dizendo que "o que a análise fez de melhor por mim foi me fazer saber me responsabilizar, saber que as coisas da minha vida, em grande parte, são de minha responsabilidade e não dos outros". Fiquei bastante indignada, um programa que sempre teve um nível razoavelmente elevado, de repente se transformou num chá da tarde, onde quatro mulheres fofocavam a respeito de suas "supostas análises"! E o pior, depois de exibir entrevistas de dois profissionais que expunham de forma adequada suas questões. Fiquei pensando, o que será que houve? Identificações projetivas maciças? Mas as quatro? E ao mesmo tempo? E justo com um assunto que elas dizem gostar e defender tanto! Mas o pior estava por vir, quando Mônica pergunta as outras se "a análise vai mudar de verdade alguém"? e Márcia responde com toda certeza do mundo que não, que "análise, como já disse Lacan, é só para gente inteligente, gente canalha, e o canalha é burro, não pode, não consegue fazer análise"! Nesta hora fiquei pasma, como pessoas que se "dizem analisadas e inteligentes" podem dizer isso? Não sei de que análise elas falam, nem se fizeram análise mesmo ou não, mas com certeza o que elas sabem sobre psicanálise é bastante equivocado, falam de um esteriótipo de psicanálise, de uma caricatura jurássica que com certeza não é o que é praticado nos consultórios dos psicanalistas contemporâneo sérios de hoje em dia! Se isso foi o que elas fizeram em suas análise, que pena! Saias procurem analistas sérios e bem formados, pois o que fizeram não foi psicanálise! Valéria Macedo
Bem Vindos ao Armazém Psicanalítico! Armazém, uma vez que este blog se propõe a ser um espaço que disponibiliza elementos de fácil entendimento para a reflexão da vida cotidiana,como em um armazém onde encontramos de tudo um pouco de forma rápida e simples. Psicanalítico, uma vez que também se vale desta fonte teórica como matéria prima para a elaboração dos elemento simbólicos à disposição para as trocas criativas que espero que este espaço fomente! Sintam-se à vontade!
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
" Trair ou não Trair, eis a Questão"?!!

A questão da traição é um dos dilemas mais antigos da humanidade. Desde que o processo de evolução nos trouxe para esta forma racional, nos diferenciando de nossos parentes primatas irracionais, nos embatemos com esse conflito! Na dimensão dos seres irracionais, poucos são os animais que estabelecem relações monogâmicas, onde a fidelidade está presente. Na grande maioria das espécies, a troca de parceiros é algo marcado pelo instinto,uma vez que ele comanda a procura do sexo visando a transmissão dos genes, e a busca das melhores combinações dos mesmos. Na perspectiva da Evolução das Espécies, o que vale é a busca pela perpetuação dos melhores e mais fortes genes, e para tanto, quanto mais parceiros os indivíduos tiverem, mais chances terão de conseguir alcançar esse objetivo. Contudo, a racionalidade traz ao ser humano a possibilidade de refletir sobre essa questão, e com esta ele chega a conclusão que é capaz de fazer mais do que transmitir seus genes através de relacionamentos sexuais, percebe que é capaz de ter prazer com ela, e mais, que não necessariamente precisa ter filhos como decorrência delas! Estas novas descobertas mudam a dinâmica dos relacionamentos sexuais na espécie humana, o foco deixa de ser a transmissão dos genes, e passa a ser a busca do prazer! Só que com o advento da racionalidade, o mesmo que libertou o ser humano de ter que buscar sexo para transmitir seus genes, e o colocou na dimensão do sexo pelo prazer, também o trouxe para o âmbito dos relacionamentos afetivos. Agora, quando quisesse ter filhos, se quisesse saber quem era filho de quem, deveria formar par monogâmico. Aí começa a complicação! O sexo pela transmissão de genes ou pela busca de prazer, são por essência poligâmicos, mas essas questões afetivas, como formação de famílias, são monogâmicas! Resultado disso, uma coisa concorre contra a outra! E é o que vemos pela estória da humanidade a fora. Um eterno conflito, onde o ser humano luta constantemente entre o desejo e a busca pelo prazer, e a manutenção do afeto, das relações familiares. Neste ponto os nobres interlocutores poderiam me interpelar, mas será que não é possível conciliar as duas coisas juntas? E certamente lhes respondo, essa é a eterna tentativa do ser humano! O problema é que o desejo e o prazer, na maioria das vezes, se deslocam em busca de nuances, variações que transformem o objeto do desejo em algo "supostamente misterioso, novo, diferente", mesmo que depois de o conhecer melhor se perceba que ele era exatamente igual ao antigo! A psique, quase sempre, precisa se iludir, se enganar, produzir miragens que tornem o objeto com cara de desconhecido. E as vezes isso é mais fácil de se fazer com um alguém concreto, objeto dessas projeções psíquicas, que seja diferente do objeto conhecido! Como resultado disso, o ser humano fica tentado a trair, enganar, burlar o acordo estabelecido, afinal ele não quer perder nada. Quer o quente e afetivo do velho conhecido, do que sempre esteve lá e lhe dá segurança, mas também quer essa miragem que lhe provoca os sentidos, que lhe aguça o desejo, que lhe promete um prazer nunca antes alcançado! Doce ilusão! Na maioria das vezes é o começo do desastre, como diz o ditado: "quem tudo quer, nada tem"! E assim vemos, ao longo da estória da humanidade os eternos encontros e desencontros afetivos. Indivíduos buscando prazer, que mais cedo ou mais tarde acabam encontrando o desprazer, o sofrimento, a infelicidade. Há pobres humanos, se soubesse que esse conflito sempre é um canto de sereia que em última instância se transforma num monstro do mar que os devorará, poderiam fazer como Ulisses, personagem mitico, que se amarrou no mastro de seu naviou para resistir a tentação! Valéria Macedo
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
" O dia que o Brasil virou gente grande"
Hoje assiste um evento extremamente interessante, a escolha da cidade que receberá as Olimpíadas de 2016. Como todos já sabem, a cidade do Rio de Janeiro foi a escolhida! E aí que começa o verdadeiro evento interessante. Receber uma Olimpíada, sem dúvida é muito bacana. Nessas situações sempre estamos envolvidos emocionalmente, sempre desejamos receber uma honra como esta. Contudo, o fato em si contém uma novidade. E a novidade não é o fato de sediarmos um grande evento esportivo. Com certeza nunca sediamos um evento do porte de uma Olimpíada, mas já recebemos os jogos Panamericanos e vamos receber de novo a Copa do Mundo em 2014. Assim o que tem de novo é menos o evento em si e mais o significado que ele traz junto de si. Hoje assisti, e diga-se de passagem pela primeira vez, o Brasil se posicionar no cenário internacional de forma séria e profissional. Assisti uma apresentação feita com seriedade e profissionalismo, que reconhecia as deficiências da cidade, mas também ressaltava de forma verdadeira e concisa, as qualidades e facilidades da mesma. Assisti um grupo de grandes atletas brasileiro empenhados em nome desta candidatura. Assisti um discurso do Presidente Lula que foi digno de um Chefe de Estado. Defendeu o Rio de Janeiro de modo emotivo e entusiasmado como é sua característica, mas também se comprometeu, como líder da Nação que é, legitimando a candidatura ao se mostrar comprometido com os investimento que serão necessários. Fim da apresentação, e que bela apresentação! Muito suspense, todos assustados acreditando que pela presença do presidente dos EUA, o resultado já estava selado. E a partir daí, uma sequência de surpresas! Chicago é a 1ª a ser eliminada, Tóquio vem na sequência, e por fim Madri perde para o Rio. Muita alegria, tanto em Copenhagem quanto no Brasil todo! Mas como já disse, o principal me parece que foi menos a vitória em si, e mais o significado que ela trouxe. E este sim foi o grande ganho que tivemos com esse evento. Por trás dessa festa toda estava uma Nação diferente. Um povo que amadurecia a "olhos vistos". Um país que se tornava "gente grande". Pela 1ª vez, nos comprometemos de forma séria e responsável com uma intenção. Pela 1ª vez, apresentamos essa intenção de comprometimento de forma profissional. Pela 1ª vez, nos apresentamos diante do Mundo de forma adulta e responsável. E tudo isso sem perder nossa alegria e leveza. Sem dúvida muito temos ainda que percorrer para chegarmos de verdade a todos esse objetivos, mas parece que pela 1ª vez demos um passo em direção a uma real chance de conseguirmos tudo isso! Daqui em diante, cabe a todos nós brasileiros, a tarefa de fiscalizar, vigiar, cobrar e exigir que tudo que foi apresentado como intenção seja colocado em prática, seja seguido de forma rígida e comprometida, para com que erros antigos não retornem e o que se pode vislumbrar hoje como um sonho, possa se tornar realidade daqui a 7 anos! Valéria Macedo
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