segunda-feira, 19 de outubro de 2009

"A Psicanálise e a Saia Justa"

Já disse que sou uma apreciadora da programação da tv paga, e não pelo fato dela "ser paga", mas em grande parte pelo fato da programação da tv aberta ter se empobrecido demais nos últimos anos. Na tv aberta, os únicos programas que ainda mantém uma preocupação com a qualidade são os telejornais e as telenovelas. Já na tv paga, grande parte de sua programação tem um grau mais alto de qualidade, formada por programas mais preocupados com o entretenimento, conciliado com um grau de reflexão que leva o telespectador a pensar. Dentre alguns desses programas, em minha opinião, se encontra o "Saia Justa" do canal GNT, que reúne quatro mulheres (Mônica Waldvogel, Maitê Proença, Betty Lago, Márcia Tiburi) que toda semana exploram temas variados, sempre com um olhar feminino, e sempre relacionados a situações de "saia justa". Desde que existe (2002), já teve outras formações, sendo que Mônica Waldvogel se mantém, uma vez que é a âncora. Mas, desde 2005 esse grupo se formou e se estabilizou. De uma certa forma, eu que acompanho o programa desde seu início, acho que deste modo ele gradualmente entrou numa fase monótona, uma vez sem as mudanças de participantes, que traziam sempre uma nova visão para o programa rompendo com a homeostase que estava estabelecida, as opiniões se mantiveram num mesmo padrão de raciocínio. Assim os temas, mesmo que se modificando, geraram discussões que tenderam a ficar numa mesma zona, uma vez que a visão das participantes já estava bem explicitada para o público. Acredito que o programa tinha mais dinâmica no tempo que a troca de elemento do grupo era mais frequente. Mas, até aí, pode ser uma nova perspectiva do programa, escolha da direção! Contudo o que vem me inquietando é uma particularidade que tenho observado. As quatro "saias", como são chamadas pelo público, dizem ser analisadas e em decorrência disto, questões analíticas sempre estão em pauta! Pelas observações que fazem, devem ter feito análise ferudianas ou lacanianas, e encerrado seus processos há muito tempo. Mas, mesmo sem serem profissionais, ou estarem em análise na atualidade, vivem dando sua "interpretações analíticas", diga-se de passagem bastante desatualizadas e tentenciosas, como se estas fossem "análises profissionais, atuais e imparciais". Acho que uma das funções da tv seja popularizar o conhecimento científico, levá-lo ao público leigo para com que este possa se familiarizar com assuntos que são mais acadêmicos, mas sem dúvida dentro de certos parâmetros. Uma coisa é facilitar o discursso científico, outra é banaliza-ló, ridicularizá-lo, empobrecê-lo! E acho, que em parte, é um pouco o que elas tem feito. Resultado, ao invés de aproximar o público leigo do discurso acadêmico, retirando os estereótipos, o que acontece é o contrário, um afastamento pela banalização. Especialmente, neste último programa foi o que aconteceu. Dedicaram um bloco do programa para falar de psicanálise e terapia cognitiva, especialmente sobre tratamentos que visam elaborar as causas ou tratamentos que visam suprimir os sintomas. Entrevistaram um psicanalista e uma terapeuta cognitiva, para que pudessem expor seus argumento de forma clara, e aí vem a pior parte, elas começam a dar suas opiniões. Todas tendenciosas, Mônica ressaltando como "já não faria mais análise, pois análise não vai fazer você ser diferente de quem você é", Betty levantando a questão do tempo, " não faria , pois ter de ir 3 vezes por semana não dá", Maitê dizendo que " só se for um analista que num dia de angústia dê uma levantada na autoestima, para depois continuar com esse negócio de papai e mamãe" e Márcia, a menos parcial e que talvés tenha feito mesmo análise lacaniana, dizendo que "o que a análise fez de melhor por mim foi me fazer saber me responsabilizar, saber que as coisas da minha vida, em grande parte, são de minha responsabilidade e não dos outros". Fiquei bastante indignada, um programa que sempre teve um nível razoavelmente elevado, de repente se transformou num chá da tarde, onde quatro mulheres fofocavam a respeito de suas "supostas análises"! E o pior, depois de exibir entrevistas de dois profissionais que expunham de forma adequada suas questões. Fiquei pensando, o que será que houve? Identificações projetivas maciças? Mas as quatro? E ao mesmo tempo? E justo com um assunto que elas dizem gostar e defender tanto! Mas o pior estava por vir, quando Mônica pergunta as outras se "a análise vai mudar de verdade alguém"? e Márcia responde com toda certeza do mundo que não, que "análise, como já disse Lacan, é só para gente inteligente, gente canalha, e o canalha é burro, não pode, não consegue fazer análise"! Nesta hora fiquei pasma, como pessoas que se "dizem analisadas e inteligentes" podem dizer isso? Não sei de que análise elas falam, nem se fizeram análise mesmo ou não, mas com certeza o que elas sabem sobre psicanálise é bastante equivocado, falam de um esteriótipo de psicanálise, de uma caricatura jurássica que com certeza não é o que é praticado nos consultórios dos psicanalistas contemporâneo sérios de hoje em dia! Se isso foi o que elas fizeram em suas análise, que pena! Saias procurem analistas sérios e bem formados, pois o que fizeram não foi psicanálise! Valéria Macedo

Um comentário:

  1. Valéria gostaria de te parabenizar pelo texto assim como o blog.
    Meu programa favorito há um anos atráz era o "saia justa"
    Incrível como pude perceber o motivo do meu afastamento.Aos poucos fui curiosamente me desligando do programa porém com esta dúvida já que costumava acompanhar estas quatro "saias" desde o começo.
    Esta banalizaçao que resultou num empobrecimento e afastamento e desinteresse por algo que me colocava para pensar junto deixou de existir.
    Um grande beijo Patricia Loureiro.

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