quarta-feira, 20 de março de 2013

A bondade nossa de cada dia!

    Tenho pensado acerca da bondade humana... Aquela boa e velha capacidade de "olhar a vida com bons olhos", de ser capaz de fazer coisas boas, de oferecer ao universo o que há de melhor em você...
    E ao pensar na bondade, imediatamente, me dedico a prestar atenção na sua manifestação... Contudo, a manifestação da bondade está ligada à manifestação do comportamento humano... E é aí que as coisas se aprofundam...
    Começo, então, a reparar nas atitudes das pessoas à minha volta, buscando ver e entender o bom que possa existir dentro delas. Logo de primeira, observo que o bom parece pouco se manifestar nas atitudes humanas, pouco participar do cotidiano das expressões dos seres humanos, como se não estivesse acessível de imediato...
    Isso me intriga, pois em tese, ela deveria surgir de forma desembaraçada e natural, como uma manifestação de um aspecto positivo da personalidade humana, como qualquer outro... Então, volto a observar as atitudes das pessoas... Logo de cara, percebo que todas as limitações e imperfeições, como avareza, egoísmo, tirania, raiva, rancor, inveja e etc, são facilmente visualizadas. Elas surgem no cotidiano humano sem reservas, sem empecilhos, como uma verdadeira expressão da personalidade de quem as manifesta.
    Porém, as virtudes, tais como amor, compaixão, gentileza, generosidade, gratidão e etc, não parecem ser expressões francas e abertas dos indivíduos... É como se todas elas, que no fundo irradiam da bondade que possa existir no ser humano, existissem numa intensidade muito mais branda do que os defeitos, que irradiam do lado mau que também habita à todos nós...
    Dentro deste panorama, parece que o lado bom, muitas das vezes perde em qualidade e quantidade para o lado mau... É como se a contemporaneidade não ajudasse na implementação do bom dentro de nós, humanos, mas com muita facilidade ajudasse o mau a se instalar... Triste observação...
    Ao tentar entender essa situação, busco ajuda da perspetiva psicanalítica, que tende a se focar nos aspecto psíquicos, na visão de que a personalidade humana é forjada no calor dos afetos que inundam a mente desde o nosso nascimento. 
    Neste cenário, podemos pensar que as virtudes e os defeitos humanos são resultado da mistura entre pulsão de vida e de morte, que se mesclam dentro do caldeirão mental primordial que encandece na alvorada da nossa existência. Um caldo mental engrossado pelas contínuas experiências vividas, boas e más, que as relações com os objetos nos propiciam... 
    Somos o resultado da mescla entre nossa carga hereditária, biológica/emocional, e nossa simbólica experiência relacional. Para nos tornarmos quem somos, precisamos desta "sarça ardente" que queima incansavelmente por toda vida, moldando nossa forma de ser e estar no mundo...
     E se assim for a forma pela qual nosso caráter é construído, esses tempos pós-modernos não estão contribuindo com sua parcela relacional equilibrada para nossa  edificação... Parece estar carecendo aos indivíduos experiências boas em maior quantidade e qualidade... Aquelas experiências carregadas de amor, paciência, compaixão e gratidão, que poderiam ajudar a marcar no psiquismo a bondade, tão escassa neste início de século...
    Ser bondoso requer modelo, aprendizado, vontade e realização. Ser bom, dá trabalho, mas é profundamente enriquecedor. A bondade nos eleva, nos transforma, melhorando em número, gênero e grau nossa qualidade de existência. Nos tornamos melhores ao buscar o bom dentro de nós, e consequentemente, ajudaremos aos outros nessa mesma empreitada.
    Viver numa proposta onde o bom domina, ajuda em nossa busca pela felicidade tão almejada, garantindo uma vida mais intensa e significativa, onde a dor pode ser vivida e ultrapassada, e o bom pode se propagar. Uma andorinha só não faz o verão, mas sempre pode ser o primeiro anúncio dele! Mª Valéria Macedo
    
    
       
    
    

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